Não é bonito - mas em tempo de guerra não se limpam armas.
E a minha segunda proposta passa por meter as mãos no emaranhado de "direitos adquiridos" da Segurança Social". Hei - mas eu sou assim.
"Suponho que tenho esse defeito de gostar de mulheres. Tantas vezes, não me lembro de pormenores, nomes, datas, números. Mas nunca me esqueço do matiz de um olhar, do tom exacto de uns cabelos, de formas enquadradas num momento gracioso.
Já tenho pensado se dizê-lo, escrever sobre tal pequeno deslumbre, sobre a ficção em suspenso atrás de uma rapariga, ou de uma mulher – é, ou possa ser, obsceno. Não pelo puritanismo em si – a que eu ligo pouco – mas pela insinuação moral de uma crise económica, que julgará ditos temas como supérfluos, quase nefelibatas.
Acabo, no entanto, a pensar que esta crise é, ao inverso, e justamente, o momento para elogiar as mulheres, e para as amar ainda mais. Desde logo, são elas o primeiro elemento da paz – e nem é preciso uma justificação como esta crise para os homens criarem guerras. Eles conseguem fazer isso gratuitamente.
Mas de uma análise simples às sociedades humanas percebe-se que o amor, e o sexo, são também uma maneira de resolver os problemas. Quando a pressão aumenta, as mulheres tornam-se mais desejáveis, os homens mais interessados e comprometidos – e a solução, tantas vezes, nasce. Pessoalmente, prefiro pensar nessa teoria, mais do que na tese – fácil – de ‘convulsões sociais’.
Às mulheres devemos, portanto, a paz, a resiliência, o motivo – e a solução. Como não gostar delas? Como não as amar, e desejar?
E bom, a verdade é que o calor também ajuda a isso – sejamos francos. Mas durante muito tempo, a mim em particular, nada ajudou. Muito menos o frio do Inverno, se me recordo bem. A verdade é que, como já escrevi antes, eu estive sempre longe de ser um mulherengo – mas nunca por falta de vontade. Persistência, aqui, é a palavra-chave.
Um ‘hound dog’ tem sempre essa prioridade: deixar de o ser. E, com esse fim em mente, a minha relação com as mulheres passou a ter duas naturezas distintas: à vez, contemplativa e arrojada.
Contemplativa, por exemplo, quando, sentado num qualquer café, pela porta entrava de súbito uma rapariga impetuosa, de belo olhar, ou uma mulher sugestiva. Enquanto ela conservava – ou exibia – o seu charme pelo espaço, pela curiosidade alheia, o tempo parava realmente, e qualquer rotina passava a ter sentido, passava a ter sabor.
Curiosamente, a presença de mulheres bonitas num espaço, embora eu nelas repare, é, para mim, profundamente relaxante. Não faltam homens que se alterem, fiquem sobressaltados, como se elas perturbassem a ordem das coisas. Para mim, elas sempre foram a restauração dessa ordem, nunca o contrário. Como se eu estivesse à espera delas, e agora que elas estão, tudo esteja enfim no seu lugar.
Sinto-me então como aqueles velhos edifícios milaneses, que só aguentam a postura arquitectónica, ao ar inquinado, e calor da cidade, por causa delas. À tarde, com estilo impecável, e passada exacta, as italianas percorrem a rua, saindo do trabalho, sempre com destino certo. Olham - e são olhadas. Afagam com a visão do seu passar os vetustos edifícios, que aguentam assim mais um dia, mais um mês, um ano, uma vida. Por elas. E pensam os ‘carabinieri’, naquele seu jeito andarilho, que são eles a manter a ordem na cidade…
Eu até gosto de dizer que, no meu caso, a paz de espírito não carece de um retiro no Tibete, milhões no banco, ou teste aos limites – basta uma sala não demasiado barulhenta, plena de mulheres bonitas. Não peço muito. Deve ser uma costela meridional – e eu gosto bastante de a ter. Alguns dirão disso ‘pequeno-burguês’, ou ‘vem no Eça!’, mas – se eu estiver nessa minha sala – nada disso me apoquenta realmente.
A certa altura da adolescência (maioritariamente contemplativa) tive também o meu curto período de arrojo. Como não? Sobretudo no acto, tão singelo e falível, de dirigir a palavra a uma rapariga - ou, com sorte, as palavras.
Fiz, inclusive, com um amigo ou outro, um concurso de ‘tampas’. O importante era desenvolver a capacidade – para um miúdo tímido – de falar. Com o adicional trágico de os meus amigos serem sempre piores que eu nessa arte (e raramente cumprirem a vez deles…).
Mas é importante saber lidar com a rejeição. A certa altura, era só mesmo isso que eu ambicionava. Até porque – com grande satisfação minha – elas não percebiam que se me ‘dessem bola’... aí sim, é que eu não tinha a mais pálida ideia do que fazer.
Geralmente, eu apontava alto. Queria logo levar uma ‘tampa’ de uma rapariga muito gira, definitivamente fora da minha liga. E os meus amigos avisavam que, pelo meio da multidão podia estar um namorado, devia estar um namorado. “Olha que – em teoria – arriscas-te a levar uma carga de porrada”.
Faço aqui só um pequeno aparte, para vos dizer que tenho um cão. Um rafeiro impertinente que gosta sistematicamente de fugir de casa, contra os meus mandos. “Leão”, digo-lhe eu ao regressar, “então tu não me ouviste, Leão? Hum? Tu não ouviste o dono, Leão? Olha que se fazes isso mais uma vez – apanhas!”. Ora, eu sei que o sacana do cão, envergonhado e apologético naquele momento, ouve “Leão! Blá, blá, blá, Leão! Blá, blá, blá, Leão! Blá, blá, blá!” – e depois volta a fazer exactamente o mesmo, se tiver a oportunidade.
Assim era eu, nesses gloriosos momentos de impulsividade – vulgo… ‘vibes’. Quando o meu amigo me dizia “Olha que – em teoria – arriscas-te a levar uma carga de porrada”, na minha mente soava “Blá, blá, blá – em teoria – blá, blá, blá.” – e eu depois fazia o que me apetecia, se tivesse a oportunidade.
Mas guardo algumas dessas tampas como medalhas. Lembro-me de uma loira deslumbrante que, numa fila de espera, e percebendo que a minha pergunta, se bem que oportuna, servia só para fazer conversa, me dirigiu o mais encantador, senhoril e adstringente ‘Diga?!’ de que me recordo – sem mais resposta. É extraordinária a capacidade de uma mulher expressar frases tão claras, com uma palavra só.
Ah, as mulheres… Digam o que disserem, sejamos Tântalos ou Casanovas, todos somos algo em função delas. A nossa felicidade passa sempre pela felicidade delas – não devia ser assim tão difícil de perceber."
