domingo, 11 de outubro de 2009

Querido Diário - 42

Às vezes digo à minha mãe que ela está possuída por um espírito maligno. Nomeadamente - pelo Almeida.

O Almeida era um feliz guarda prisional, que se deliciava a implicar com os detidos do seu establecimento - não desdenhando o eventual correctivo, vulgo 'enxerto de porrada'. Por alguma razão que desconheço, faleceu.

Ainda menos sei porque ficou a sua alma penada entre nós. Sei apenas que escolheu a minha mãe para assumir forma humana, ocasionalmente. E, nessa altura, consegue transformar a cozinha numa cela de Guantánamo. Uma mesa desarrumada converte-se num arsenal eloquente, com plantas de alvos, com datas e sonetos de adeus à vida. Há gritos e provas do crime - impõe-se tortura!

Já um quarto desarrumado - a minha 'célula', entenda-se - é mais difícil de atingir. Mas o "Almeida" bem tenta pôr-me na ordem, com sistemáticas reprimendas a alto volume.

Vá lá que a minha mãe costuma reassumir o controlo da nave antes do terceiro 'waterboarding'. Senão eu tinha mesmo que sair da casa dos pais.