Sou só eu, ou o Ramus Rüffer da Troika é aparentado com o Malachia do Nome da Rosa?
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domingo, 8 de maio de 2011
terça-feira, 15 de março de 2011
O Fim
As agências, a dívida, o Sócrates, o Passos Coelho, o gajo do emprego, a gaja do emprego. A gasolina. O pão. O açúcar. O IVA. O cartão do Continente, a música do Pingo Doce. A mediocridade dos comentadores nacionais. O silêncio ensurdecedor desde onde se esperava criatividade, inteligência.
É o fim, meus amigos. Sabe a fim.
Mas não desesperemos - é o fim de um ciclo, outro se seguirá. E não me refiro a partidos, ou eleições. Refiro-me a uma inevitabilidade da natureza, e um sentido de História que nos deixa desconfiar que Portugal vai - a bem ou a mal - encontrar as suas saídas desta situação. Tem o know how, os genes para tal.
A grande dúvida não é essa. A grande dúvida é sempre quem é que chegará a esse próximo ciclo, e em que condições.
Caros passageiros - vamos atravessar uma zona histórica de turbulência. Por favor, permaneçam em silêncio (a menos que sejam heróis - sem ironia), e com o coração apertado.
É o fim, meus amigos. Sabe a fim.
Mas não desesperemos - é o fim de um ciclo, outro se seguirá. E não me refiro a partidos, ou eleições. Refiro-me a uma inevitabilidade da natureza, e um sentido de História que nos deixa desconfiar que Portugal vai - a bem ou a mal - encontrar as suas saídas desta situação. Tem o know how, os genes para tal.
A grande dúvida não é essa. A grande dúvida é sempre quem é que chegará a esse próximo ciclo, e em que condições.
Caros passageiros - vamos atravessar uma zona histórica de turbulência. Por favor, permaneçam em silêncio (a menos que sejam heróis - sem ironia), e com o coração apertado.
sábado, 20 de novembro de 2010
(N)O Almoço Não Estava Mao
Entrevista de ex-líder estudantil durante o 25 de Abril, que 'ao contrário dos outros líderes estudantis (...) que se tornaram comunistas ou radicais', fora sempre um 'centrista', vejam bem. E o jornalista acha que é encantadora a timidez do ex-líder a falar de si mesmo. Fica bem esta modéstia.
É. Não há dúvida que neste almoço o chefe escolheu ele próprio o menu.
É. Não há dúvida que neste almoço o chefe escolheu ele próprio o menu.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Turn The Table
Here's a thouhgt: porque não sugerir aos portugueses que comprem dívida do seu próprio país? Porque não uma campanha original que propusesse investir em dívida portuguesa? Porque 6,151% a 10 anos supera os 5,65% a 10 anos dos Certificados do Tesouro...
É claro que eu posso estar a ser grosseiramente ingénuo. Mas, se não for esse o caso... Duh!
É que não só nos estaríamos a financiar (talvez a adesão fosse mais significativa do que se pode pensar à partida), como também a aumentar a poupança nacional. Dois em um, não?
É claro que eu posso estar a ser grosseiramente ingénuo. Mas, se não for esse o caso... Duh!
É que não só nos estaríamos a financiar (talvez a adesão fosse mais significativa do que se pode pensar à partida), como também a aumentar a poupança nacional. Dois em um, não?
domingo, 24 de outubro de 2010
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Lend Me, Beautiful
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Life Imitating Fiction Imitating Life
Uma coisa muito curiosa, estranha, quando penso na década de 90 e na década de 2000 é a emancipação das séries de TV que eu via. Ao contrário do filme de Woody Allen, foi a ficção que invadiu a realidade.
Primeiro foi o Dragonball copiado por Cristiano Ronaldo - o treinar, treinar, treinar para conseguir ser... super-guerreiro (ou super-puto). E o futebol como o 'combate'.



Depois foram os Gato Fedorento - não que não produzissem ficção também, claro, mas trouxeram o tipo de piada que parecia tão estrangeira, tão americana, tão fora do mainstream português - para o mainstream português. Uma das mais bem feitas enxertias culturais, com talento - sobretudo de Araújo Pereira e Quintela. Trouxeram o registo dos Monty Python, dos Friends, do Seinfeld.
Desta vez ocorreu-me recorrer a algo um pouco mais subtil. Se vocês começarem o vídeo no minuto 4:51 faz-vos lembrar algo?
Outra transição - enorme - foi a da pornografia. A certa altura dos anos 90, com o (going on) mítico Canal 18, ela saltou dos VHS manhosos e dos PC dos adolescentes para... todo o lado. Depois - suprema ingerência - os adultos começaram a mexer nos nossos computadores (damn user-friendly interfaces...), e a contactar com esse mundo de pornografia, inesgotável, gratuito.
Eis como a pornografia - de repente - passou a ser universalmente aceite; era fácil reconhecer os românticos ingénuos que não sabiam ainda 'da coisa'. Pessoas que hoje são famosas foram envolvidas em situações pornográficas (Ronaldo, a propósito) - e nenhum mal veio ao seu mundo. Porque a pornografia era, cada vez mais, um pecado generalizado. Mas nessa transição, é fácil esquecer algo o veículo principal: a tecnologia - o desenvolvimento da Internet com alta velocidade e aumento do poder de computação (eventualmente o desenvolvimento da rede de TV por cabo).
E assim a pornografia passou de algo contido a 'vecinitas cachondas' para um oceano de coisas, que mistura tudo, melhor e pior, inclusive a mais disturbing perversão... Antes os operadores de cabo faziam de conta que não sabiam 'daquilo' - 'vem de Espanha' defendiam-se com... pudor. Lembram-se? Agora existem canais (plural) especializados em todos os operadores.
(Recordo, para manter o fio condutor nesta discussão, que a pornografia é ficção, maioritariamente. Basta pensarem no vosso dia-a-dia para verem a diferença. Lá por não excercitar os mais nobres locais da nossa mente, é uma 'construcção de descontrucção', e como tal ficcional. Só seria (será?) documental, descontrucção do sexo, na versão National Geographic da vida humana.)
No meio disto veio o 'American Pie' - a traduzir em cinema o mundo de secreto, e delicioso... deboche (?) pós-Internet da minha geração. Neste caso, porém, foi a Ficção a Imitar a Vida.
O que é muito interessante, para mim, porque a pornografia exibiu cruamente uma realidade, matou ilusões e educações arcaicas - e hoje já nem nos apercebemos que só temos o dinheiro, a fama, o poder, o trabalho. A pornografia matou muito romântico nas duas últimas décadas, e tornou a sociedade mais egoísta, e selvagem - darwiniana (se o não foi sempre).
Desta vez ocorreu-me recorrer a algo um pouco mais subtil. Se vocês começarem o vídeo no minuto 4:51 faz-vos lembrar algo?
Outra transição - enorme - foi a da pornografia. A certa altura dos anos 90, com o (going on) mítico Canal 18, ela saltou dos VHS manhosos e dos PC dos adolescentes para... todo o lado. Depois - suprema ingerência - os adultos começaram a mexer nos nossos computadores (damn user-friendly interfaces...), e a contactar com esse mundo de pornografia, inesgotável, gratuito.
Eis como a pornografia - de repente - passou a ser universalmente aceite; era fácil reconhecer os românticos ingénuos que não sabiam ainda 'da coisa'. Pessoas que hoje são famosas foram envolvidas em situações pornográficas (Ronaldo, a propósito) - e nenhum mal veio ao seu mundo. Porque a pornografia era, cada vez mais, um pecado generalizado. Mas nessa transição, é fácil esquecer algo o veículo principal: a tecnologia - o desenvolvimento da Internet com alta velocidade e aumento do poder de computação (eventualmente o desenvolvimento da rede de TV por cabo).
E assim a pornografia passou de algo contido a 'vecinitas cachondas' para um oceano de coisas, que mistura tudo, melhor e pior, inclusive a mais disturbing perversão... Antes os operadores de cabo faziam de conta que não sabiam 'daquilo' - 'vem de Espanha' defendiam-se com... pudor. Lembram-se? Agora existem canais (plural) especializados em todos os operadores.
(Recordo, para manter o fio condutor nesta discussão, que a pornografia é ficção, maioritariamente. Basta pensarem no vosso dia-a-dia para verem a diferença. Lá por não excercitar os mais nobres locais da nossa mente, é uma 'construcção de descontrucção', e como tal ficcional. Só seria (será?) documental, descontrucção do sexo, na versão National Geographic da vida humana.)
No meio disto veio o 'American Pie' - a traduzir em cinema o mundo de secreto, e delicioso... deboche (?) pós-Internet da minha geração. Neste caso, porém, foi a Ficção a Imitar a Vida.
É - eu gosto bastante do filme.
O que é muito interessante, para mim, porque a pornografia exibiu cruamente uma realidade, matou ilusões e educações arcaicas - e hoje já nem nos apercebemos que só temos o dinheiro, a fama, o poder, o trabalho. A pornografia matou muito romântico nas duas últimas décadas, e tornou a sociedade mais egoísta, e selvagem - darwiniana (se o não foi sempre).
My Fiction, My Life
A mais recente invasão da realidade por séries de ficção é... a minha vida. Ultimamente, com o desregramento de não estar a trabalhar, e estudando em part-time (de nenhum full-time), com a insalubridade da má alimentação, as horas de sono trocadas com quem trabalha em casa, recordo-me das... Ab Fab:
Eu via isto mais novo, e foi profético - para a minha small picture. Tal como a televisão foi profética no que se viria a passar na big picture.
É claro, a série de TV que eu pensei que seria a minha vida - honestamente - seria esta (como peculiar médico de Clínica Geral, resolvendo os 'casos'):
But, alas, it wasn't to be. (Foi a Agatha Christie que me ensinou o alas).
Talvez até, na verdade, fosse esta a série que eu quisesse vir a ser a minha vida:
A propósito, é altamente necessário que esta ficção volte... à ficção. Sic Radical - quanto tempo para acordar para a vida, hein?
Por não acabar? (Risos) Na altura mais por ser a vida do solitário bem consigo - sereno. E talvez ainda vá bem a tempo dela. Bem a tempo.
Wake Up And Smell The Bullshit
Eu não quero emitir juízos ideológicos, a sério que não quero*, mas será que mais alguém reparou na quantidade de vezes que foi dito 'inesperado' o Nobel de Llosa? E não vos parece que nem todos os 'inesperado' estão bem explicados?
1. Foi 'inesperado' para o próprio Llosa, permanece por saber se por humildade pessoal, se por descrença na Academia;
2. Foi 'inesperado' porque espécie de remissão do prazer perverso de nos anos anteriores laurear desconhecidos;
3. Agora, parece-me que, para muitos jornalistas, o prémio foi 'inesperado' porque Llosa é de direita, como se sabe - e como tal uma traição ao 'espírito' daquele Nobel.
Mas este último 'inesperado', nenhum deles o explicita. Sou só eu que por baixo dele vê uma confissão amordaçada? Talvez.
*a questão aqui é a bullshit.
1. Foi 'inesperado' para o próprio Llosa, permanece por saber se por humildade pessoal, se por descrença na Academia;
2. Foi 'inesperado' porque espécie de remissão do prazer perverso de nos anos anteriores laurear desconhecidos;
3. Agora, parece-me que, para muitos jornalistas, o prémio foi 'inesperado' porque Llosa é de direita, como se sabe - e como tal uma traição ao 'espírito' daquele Nobel.
Mas este último 'inesperado', nenhum deles o explicita. Sou só eu que por baixo dele vê uma confissão amordaçada? Talvez.
*a questão aqui é a bullshit.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Quem Fala Assim É Gago
Mariano Gago esta semana, a propósito da abertura de um curso de Medicina em Aveiro. No tom certo para defrontar uma ordinarice encapotada que mexeu com a vida de vários jovens portugueses - eu incluído.
“O que é verdade é que, neste momento, faltam médicos em Portugal e isso toda a gente sabe e ninguém compreenderia no país, sobretudo as pessoas que procuram os médicos, que o Estado fizesse aquilo que, infelizmente, fez há 20 anos, que foi proibir a entrada de estudantes nas faculdades de Medicina para reservar a profissão só àqueles que lá estão. Isso é que era completamente inadmissível e devo dizer que não contem comigo para isso”
Depois queixem-se de eu gostar de Espanha. Ao menos deu-me a oportunidade de cursar Medicina, naquele então, ao passo que o meu próprio país me a recusou.
Depois queixem-se de eu gostar de Espanha. Ao menos deu-me a oportunidade de cursar Medicina, naquele então, ao passo que o meu próprio país me a recusou.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Menos Obscenidade, Mais Pornografia, Por Favor!
Eu tento seguir erimita, mas as pessoas teimam em contar-me os problemas e, alas, continuo a evitar dar uma marretada na televisão.
Há vários anos que eu digo, escrevo (e eu bem sei do número elevado de portugueses que seguem as minhas opiniões - eles hão-de, naturalmente, lembrar-se), que Portugal atravessa um deserto da ofensa à inteligência. Nomeadamente por parte dos seus governantes, elites, e "parceiros sociais". Temos perante nós uma situação encapotada de asfixiamento da juventude, por parte de uma classe etária acomodada, que não compete, não é avaliada, que se mexe na sombra - mas mexe em tudo, e condiciona a ascenção dos mais novos.
Repare-se, por exemplo, que as coorporações têm inclusive aumentado, no nosso país. Como se não bastasse o aumento do Estado e a infecção burocrática europeia. Tudo conflui para uma geração vigente, demasiado vigente, que tudo controla, enquanto uma outra assiste em baixo, se sujeita, evita casar e vive em casa dos pais até aos 30, esboroa todos os sonhos e ambições que não envolvam dinheiro fácil, carros de luxo, sexo, futebol. Quem estuda "à antiga" é um excêntrico, quem lê é um excêntrico, quem vive sem nada do Estado é um excêntrico.
Muito prazer.
Parte de mim muito gostaria de prosseguir uma vida ociosa, com dinheiro fácil garantido, sexo ainda mais fácil, champanhe, viagens, carros velozes. A questão é que não vejo isso a acontecer. A sociedade teima em não me entronizar, por uma qualquer razão. Por isso, optei por fazer o meu percurso, trabalhar enquanto coetâneos me gozam por o fazer, tentar a minha sorte perfeitamente sozinho, no meu meio profissional. Um pouco à maluca, mas eu até sinto que ganhei a minha aposta.
Voltanto atrás, porém, é claríssimo existirem hoje duas gerações de portugueses: aqueles, mais velhos no jogo, que dominam Estado, corporações, administrações de empresas, sindicatos, e reformados (velhos e semi-velhos...), e o resto, em que se mistura uma classe média com filhos encalhados, assustados empregados nas estruturas de tudo isto, tantas vezes "escravizados", qualquer que seja o seu mérito, e, claro, os típicos "furas-vidas", ociosos subsidiodependentes, que têm o instinto de perceber que estão a ser encornados - por isso, num maguito, se recusam a mexer palha.
Voltando à questão da ofensa à inteligência, vejam como as medidas de contenção que o Governo propõe, mesmo que fossem virtuosas (infelizmente provar-se-ão, temo bem, terem efeitos contraproducentes e contracturantes na Economia), são obscenamente discrecionárias. Ninguém mexe na estrutura mastodôntica do Estado - aí não - ninguém privatiza o sorvedouro que é a RTP, ninguém-ninguém corta - percebem agora? - na geração vigente.
Cortam nos portugueses que têm a mania de serem melhores que os outros - os independentes -, e na geração subjugada: aqueles que não foram espertos o suficiente para se meterem no Estado, para se meterem nos sindicatos, para se meterem nas câmaras, para se meterem nas Ordens, para se meterem. Até mesmo aqueles que aí se meteram - mas só são mandados. Mesmo aos "fura-vidas" do maguito cortam o subsídio de desemprego, algum dia o rendimento mínimo.
Eis o país, em 2010 - de um lado os ofensores da inteligência, do outro os ofendidos. Os primeiros ocupam, e dão a cenoura (subsídios, empregos, aconchegos vários) e o chicote (supressão da liberdade, como eu lhe chamo, por censura-vodu - o de cima não profere as palavras claras, só dá sinais que o de baixo usa para se auto-limitar). Os ofensores fingem que não estão a ofender (o que faz parte da ofensa, claro), os ofendidos fingem não estarem a ser ofendidos (temos é que viver um dia de cada vez - podia ser pior).
Eu não quero muito falar sobre tudo isto, porque o acho perfeitamente obsceno. Tão obsceno que me cansa, por deprimente que nem sequer o achemos todos obsceno. E em vez disso tento fantasiar, escapar, e penso que a minha televisão, os relatos que me contam, deveriam estar esvaziados de obsceno. Porque não substituídos por pornografia?
Em vez de Mário Crespo, uma pornstar loira, esbelta, linda de morrer. Em vez de RTP as produções da Vivid Entertainment. Em vez da Fátima Campos Ferreira, uma checa deslumbrante. Em vez da nova apresentadora da Sic Notícias... hum... espera - essa pode ficar.

Ah... fosse o (meu) mundo mais pornográfico e menos obsceno... Que menos dignidade não teria - de tanto estou certo.
Há vários anos que eu digo, escrevo (e eu bem sei do número elevado de portugueses que seguem as minhas opiniões - eles hão-de, naturalmente, lembrar-se), que Portugal atravessa um deserto da ofensa à inteligência. Nomeadamente por parte dos seus governantes, elites, e "parceiros sociais". Temos perante nós uma situação encapotada de asfixiamento da juventude, por parte de uma classe etária acomodada, que não compete, não é avaliada, que se mexe na sombra - mas mexe em tudo, e condiciona a ascenção dos mais novos.
Repare-se, por exemplo, que as coorporações têm inclusive aumentado, no nosso país. Como se não bastasse o aumento do Estado e a infecção burocrática europeia. Tudo conflui para uma geração vigente, demasiado vigente, que tudo controla, enquanto uma outra assiste em baixo, se sujeita, evita casar e vive em casa dos pais até aos 30, esboroa todos os sonhos e ambições que não envolvam dinheiro fácil, carros de luxo, sexo, futebol. Quem estuda "à antiga" é um excêntrico, quem lê é um excêntrico, quem vive sem nada do Estado é um excêntrico.
Muito prazer.
Parte de mim muito gostaria de prosseguir uma vida ociosa, com dinheiro fácil garantido, sexo ainda mais fácil, champanhe, viagens, carros velozes. A questão é que não vejo isso a acontecer. A sociedade teima em não me entronizar, por uma qualquer razão. Por isso, optei por fazer o meu percurso, trabalhar enquanto coetâneos me gozam por o fazer, tentar a minha sorte perfeitamente sozinho, no meu meio profissional. Um pouco à maluca, mas eu até sinto que ganhei a minha aposta.
Voltanto atrás, porém, é claríssimo existirem hoje duas gerações de portugueses: aqueles, mais velhos no jogo, que dominam Estado, corporações, administrações de empresas, sindicatos, e reformados (velhos e semi-velhos...), e o resto, em que se mistura uma classe média com filhos encalhados, assustados empregados nas estruturas de tudo isto, tantas vezes "escravizados", qualquer que seja o seu mérito, e, claro, os típicos "furas-vidas", ociosos subsidiodependentes, que têm o instinto de perceber que estão a ser encornados - por isso, num maguito, se recusam a mexer palha.
Voltando à questão da ofensa à inteligência, vejam como as medidas de contenção que o Governo propõe, mesmo que fossem virtuosas (infelizmente provar-se-ão, temo bem, terem efeitos contraproducentes e contracturantes na Economia), são obscenamente discrecionárias. Ninguém mexe na estrutura mastodôntica do Estado - aí não - ninguém privatiza o sorvedouro que é a RTP, ninguém-ninguém corta - percebem agora? - na geração vigente.
Cortam nos portugueses que têm a mania de serem melhores que os outros - os independentes -, e na geração subjugada: aqueles que não foram espertos o suficiente para se meterem no Estado, para se meterem nos sindicatos, para se meterem nas câmaras, para se meterem nas Ordens, para se meterem. Até mesmo aqueles que aí se meteram - mas só são mandados. Mesmo aos "fura-vidas" do maguito cortam o subsídio de desemprego, algum dia o rendimento mínimo.
Eis o país, em 2010 - de um lado os ofensores da inteligência, do outro os ofendidos. Os primeiros ocupam, e dão a cenoura (subsídios, empregos, aconchegos vários) e o chicote (supressão da liberdade, como eu lhe chamo, por censura-vodu - o de cima não profere as palavras claras, só dá sinais que o de baixo usa para se auto-limitar). Os ofensores fingem que não estão a ofender (o que faz parte da ofensa, claro), os ofendidos fingem não estarem a ser ofendidos (temos é que viver um dia de cada vez - podia ser pior).
Eu não quero muito falar sobre tudo isto, porque o acho perfeitamente obsceno. Tão obsceno que me cansa, por deprimente que nem sequer o achemos todos obsceno. E em vez disso tento fantasiar, escapar, e penso que a minha televisão, os relatos que me contam, deveriam estar esvaziados de obsceno. Porque não substituídos por pornografia?
Em vez de Mário Crespo, uma pornstar loira, esbelta, linda de morrer. Em vez de RTP as produções da Vivid Entertainment. Em vez da Fátima Campos Ferreira, uma checa deslumbrante. Em vez da nova apresentadora da Sic Notícias... hum... espera - essa pode ficar.

Em vez de os clientes me chatearem no trabalho - uma francesa a despir-se suavemente até ficar de lingerie. Em vez de ir a andar para casa, uma limusine onde uma americana me espera só com um copo de champanhe e uma estola negra. Em vez de um quarto vazio de onde escrevo este post, um quarto onde duas amigas de olhos azuis esperam uma massagem na cama.
Ah... fosse o (meu) mundo mais pornográfico e menos obsceno... Que menos dignidade não teria - de tanto estou certo.
(...)
Subitamente - que visão de artista! -
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista;
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!
(...)
Cesário Verde, in "Num Bairro Moderno"
Subitamente - que visão de artista! -
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista;
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!
(...)
Cesário Verde, in "Num Bairro Moderno"
quinta-feira, 20 de maio de 2010
How Bizarre...?
Fará daqui a pouco tempo ano e meio desde o primeiro momento em que falei de Lady GaGa num blog meu. Foi ainda no Generosità, claro.
De entre a surpresa, por uma certa densidade - inusitada - de discurso, por mais que estivesse mesclada com a superficilidade de um "pop's next big thing", ou uma obssessão algo parva com a "fashion!". Nada disso era o que me interessava.
Não é distinguir o "comercial", empolado pela escala, do talento de rua, "puro". É distinguir quando o talento se junta à escala multiplicativa do comercial.
A música estava bem feita - mesmo muito bem feita, diferente do plástico reinante nos últimos anos. Com uma matéria-prima assim, e uma atitude que me parecia a certa, dentro de pouco tempo, dizia eu, estaria no top. Depois de ganhar tudo e de gerar hit após hit - ei-lo. Tão simplesmente.
Curiosamente, quando falei nela, a princípio, quando era desconhecida de todos, fui mais ou menos abertamente gozado. O seu bizarro, o seu 'statement' em chocar o público parecia cegar esses meus críticos para aquilo de que eu estava a falar. Um deles, inclusive, tinha uma teoria de que ela seria o tipo de mulher que me atraía, que aquele bizarro constituía um ideal de beleza. A "tua" Lady GaGa, dizia ele, quando a música soava. Quando eu ainda hoje tenho uma certa repulsa visceral pelas suas toilettes.
Claro que tudo isso era forçado, e almejava a provocação gratuita. Desclassificar-me para essa erótica-trash tinha todas as menos nobres razões por detrás. O certo é que a música soou vezes demais, saltou para o mainstream, e aquele bizarro todo, devido à qualidade da música, saltou para todo o lado. Esse crítico, anónimo, até dava grande importância, na vida, ao "ganhar" e ao "perder". Apesar dos seus comentários jocosos, ela persistiu, e ela ganhou. A gaja feia, repulsiva, chocante - ganhou.
Poder-se-á - e bem - dizer que uma estrela é ela e a sua circunstância. E que na nossa circunstância algo desoladora, Lady GaGa é a estrela que resta. Mas isso é sempre verdade, em todo o momento da História.
Eis a prova da vitória - a reprodução. A tão almejada "Fama", mais patente do que nos discos de platina.
O vídeo seguinte tem perto de 19 milhões de 'views'. É mais fácil de ver - assim limpo do bizarro (até já com um twist de cover) - a tal qualidade de composição que me impressionou...
De entre a surpresa, por uma certa densidade - inusitada - de discurso, por mais que estivesse mesclada com a superficilidade de um "pop's next big thing", ou uma obssessão algo parva com a "fashion!". Nada disso era o que me interessava.
Não é distinguir o "comercial", empolado pela escala, do talento de rua, "puro". É distinguir quando o talento se junta à escala multiplicativa do comercial.
A música estava bem feita - mesmo muito bem feita, diferente do plástico reinante nos últimos anos. Com uma matéria-prima assim, e uma atitude que me parecia a certa, dentro de pouco tempo, dizia eu, estaria no top. Depois de ganhar tudo e de gerar hit após hit - ei-lo. Tão simplesmente.
Curiosamente, quando falei nela, a princípio, quando era desconhecida de todos, fui mais ou menos abertamente gozado. O seu bizarro, o seu 'statement' em chocar o público parecia cegar esses meus críticos para aquilo de que eu estava a falar. Um deles, inclusive, tinha uma teoria de que ela seria o tipo de mulher que me atraía, que aquele bizarro constituía um ideal de beleza. A "tua" Lady GaGa, dizia ele, quando a música soava. Quando eu ainda hoje tenho uma certa repulsa visceral pelas suas toilettes.
Claro que tudo isso era forçado, e almejava a provocação gratuita. Desclassificar-me para essa erótica-trash tinha todas as menos nobres razões por detrás. O certo é que a música soou vezes demais, saltou para o mainstream, e aquele bizarro todo, devido à qualidade da música, saltou para todo o lado. Esse crítico, anónimo, até dava grande importância, na vida, ao "ganhar" e ao "perder". Apesar dos seus comentários jocosos, ela persistiu, e ela ganhou. A gaja feia, repulsiva, chocante - ganhou.
Poder-se-á - e bem - dizer que uma estrela é ela e a sua circunstância. E que na nossa circunstância algo desoladora, Lady GaGa é a estrela que resta. Mas isso é sempre verdade, em todo o momento da História.
Eis a prova da vitória - a reprodução. A tão almejada "Fama", mais patente do que nos discos de platina.
O vídeo seguinte tem perto de 19 milhões de 'views'. É mais fácil de ver - assim limpo do bizarro (até já com um twist de cover) - a tal qualidade de composição que me impressionou...
Mais acrescento que até prefiro a versão deste puto (embora eu provavelmente também prefira a versão acústica de Lady GaGa à comercial). Já agora - este parece o tal talento "puro", de rua.
Não - eu tinha razão em ser assim idiota, shameless.
Não - eu tinha razão em ser assim idiota, shameless.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Demasiado
Uma das coisas absolutamente desconcertantes neste Portugal que nos toca viver é a falta de rasgo, de brilhantismo e criatividade. E é especialmente notório quando, acerca de Economia, se ouvem os mesmos chavões e banalidades do costume, mais ou menos disfarçados por jargão.
É revoltante este panorama desolador, para um país que, malgrado os seus defeitos, até é especialmente criativo.
Demasiados os professores aburguesados, que temem os alunos melhores que o mestre... Demasiadamente escassos os alunos com a coragem de fazer a prova matemática melhor que eles no quadro, mandar o giz ao chão e sair da sala de rompante.
É revoltante este panorama desolador, para um país que, malgrado os seus defeitos, até é especialmente criativo.
Demasiados os professores aburguesados, que temem os alunos melhores que o mestre... Demasiadamente escassos os alunos com a coragem de fazer a prova matemática melhor que eles no quadro, mandar o giz ao chão e sair da sala de rompante.
O Fado dos Salários Baixos
Krugman, a explicar porque é que em Portugal faz mais sentido a redução salarial - um decréscimo do custo laboral relativo - que as medidas-"sacrifício" de aumento de impostos. Curiosamente, parece-me, configura um raciocínio económico mais da "direita", do que da (sua) esquerda.
Quantas vezes não ouviram os portugueses dos seus políticos a frase "o crescimento económico tendo por base os salários baixos está esgotado"? Estará? Este é o fado que teremos, provavelmente, de continuar a cantar, por falta de dimensão, de mercado interno.
[Update]
Precioso este comentário de um italiano: "WAGES IN GERMANY NEED TO RISE 20-30% RELATIVE TO PERIPHERY!".
domingo, 9 de maio de 2010
terça-feira, 4 de maio de 2010
O Prefixo
Alegre apresentou a sua candidatura como "supra-partidária". Mas daqui donde estou parece mesmo é... infra-partidária.
sábado, 1 de maio de 2010
Azevedo e a "T" word
Se eu fosse o Pinheiro de Azevedo destes tempos históricos - pá - punha-me mas era a falar pra uma CNN, naquele típico Inglês com sotaque de Alijó e dizia-lhes: "my friends - pá - you must control those financial... como é que se chama?... bitches que praí andam. It's true, pá. Because that is financial terrorrism for us, portuguese. We don't like that... como é que era, pá?... that shit. Yes. It's terrorrism because innocent people get hurt. So you better controlate your agências de rating, or that may lixar comó caraças our relations - pá - com os United Estates. Understand?
Ok. So now, excuse me, pá, but I'm gonna have lunch, pá."
Ok. So now, excuse me, pá, but I'm gonna have lunch, pá."
quinta-feira, 29 de abril de 2010
"É Pá, Vou Almoçar"
Pinheiro de Azevedo: o meu ídolo na Política portuguesa, desde que vi estas declarações na RTP Memória. Eis um homem com o sentido do que conta realmente.
Isto é impagável de tão castiço. Mas eu não estou a brincar - ele é mesmo a minha maior referência política.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Lucidez - Sempre o Recurso Mais Escasso
Um pouco de (muito dolorosa) lucidez. Que Portugal é um país de escassos recursos - mas a lucidez é sempre o mais escasso de todos.
The importance of not being Greece
Diz a Economist que é importante não sermos a Grécia - mas cuidado com as comparações. Pode o tiro sair pela culatra.
sábado, 24 de abril de 2010
A Micro e a Macro-Moralidade
Aviso: o cartoon que se segue pode ofender a sensibilidade de algumas pessoas. É possível que o visionamento do mesmo condicione o juízo de quem me conhece como "boa pessoa". Por tal resta-me somente pedir desculpa.
Mas a questão é que eu achei a referência perfeita para ilustrar a minha teoria da "micro-moralidade" e "macro-moralidade" de Portugal (só a primeira é aplicada pela população).Vem do Brasil - não por acaso, suponho.
Mas a questão é que eu achei a referência perfeita para ilustrar a minha teoria da "micro-moralidade" e "macro-moralidade" de Portugal (só a primeira é aplicada pela população).Vem do Brasil - não por acaso, suponho.

sexta-feira, 12 de março de 2010
A Minha Farmácia I: A Volta do Monstro
A minha farmácia, a farmácia onde trabalho de momento, tem várias semelhanças com o bar de "Cheers". Ou então, sucede apenas que eu me entretenho a rever a série (que ainda não me entusiasma demasiado, tal como há anos atrás), em reposição na RTP Memória.
"Where everybody knows your name/And they're always glad you came" - assim vai a canção. É. E assim gostaria eu de receber os clientes. Infelizmente, porém, se alguma vez ainda consegui fazer de "Sam"...
...demasiadas vezes acabo por ser apenas um "coach", atrapalhado, esquecido - e confuso.
Curiosamente, não é descabido puxar para as minhas duas colegas a comparação com a "Carla" e a "Diane". A semelhança é tão boa que recuso-me a mais desenvolver o tema.
Desde que começei, foi-me possível - como é inevitável a um farmacêutico, que lida com todo os aspectos que as pessoas evitam levar para a sua vida "mainstream" - fazer aquilo que o Pacheco Pereira chamou um dia da "volta do monstro", e que eu interpretei sempre como a perda de um certo idealismo de juventude - da "virgindade antropológica", chamo-lhe assim. Basicamente, constatar o lado negro da natureza humana.
Ocorre que, por prazer desde que me conheço, consigo ler em várias línguas, tenho uma cultura geral que me permite ter uma mínima conversa com vários tipos de pessoas, e completei um curso superior. Mas amiúde atendo pessoas que me não me consideram - de todo - um "doutor". É certo que eu nunca puxo esses galões, como me nauseia ver fazer. Nauseia sobretudo porque é mais próprio dos "pseudo-doutores".
Mas estranho tratarem-me por "tu", ou, pior, surriparem os complementos de uma frase para a tornar possessiva, nunca mais gentil. "Traz-me isto", ou "Quero aquilo", etc, etc. O "se faz favor" e "obrigado", castigada a sua falta mínima em mim, parecem ter feito, na mente obtusa destas pessoas (felizmente uma minoria), uma espécie de "murder-suicide pact" - já não podiam ali viver mais. O "se faz favor" pediu ao "obrigado" para o balear, e este último viu-se... obrigado a suicidar-se também - por gratidão.
Mas o pior está por descrever: o achincalhamento ad hominem, ou seja, o espectáculo de humilhação pessoal - dirigido a mim - por (até agora) 2 pessoas distintas, que, sem piedade, se desfazem das suas frustrações ofendendo um rapazito novo ao balcão - porque sim. Felizmente, constato - e quem me conhece sabe que prezo a honestidade intelectual - sem mácula minha, sem razão objectiva de queixa. Já errei nesta profissão, confesso - mas não errei em nenhum destes 2... X-Files.
Um deles, curiosamente, era um homem parecidíssimo também com o Cliff Clavin do "Cheers" (na foto à esquerda do Norm), e do dia antes, em que me aborreceu com uma descrição inusitada da sua vida, percebo que as semelhanças não se ficam por aí. Recordo os seus olhos estranhamente vermelhos, a falta de lucidez básica no discurso, e a negação de todas as minhas "exit strategies" da conversa: cada vez que me afastava para ir arrumar algo, ele... continuava a falar. Nunca tinha visto algo assim. "It's a little known fact" - parecia ele repetir a cada ronda de trivialidade.
Na noite seguinte a este confessionário, veio à farmácia chamar-me practicamente idiota e mentecapto matemático, urlando perante todos os clientes e colegas, vermelhíssimo novamente, para exigir 10 euros de troco do dia anterior. Emprestei os documentos em causa à minha superior, para que ela fizesse as necessárias contas - que revelaram um erro. Tive que lhe pedir desculpa, e voltar para casa com os nervos em franja. Mais tarde a minha superior ligou-me: o "Cliff" tinha ido à farmácia confessar que se tinha enganado, e ela própria tinha feito as contas mal, com os documentos que lhe dei. Inocente, eu? Só depois de ser gratuitamente rolo-comprimido - sem direito a desculpa, naturalmente.
Tudo escrito, não é que eu não soubesse do "monstro", mas ainda me aborrece. Torna este país ainda menos especial, diferente até do que eu pensava dele em criança. Igualzinho aos outros, sem tirar nem pôr. E é pena. Eu tenho pena.
Mas bom, esta "volta do monstro" constitui a primeira lição que a minha farmácia, enquanto microcosmos, me tem dado sobre o meu país. A segunda segue dentro de momentos. Não a percam.
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