domingo, 30 de agosto de 2009

Querido Diário - 26

Não suporto mais os meus pais. Constantemente, criticam o meu horário de sono, os meus projectos de vida (farto de lhes dizer que os jogos de vídeo melhoram a acuidade visual), a minha higiene pessoal (nem vale a pena insistir na minha tese de que a roupa interior é um mito criado pelo marketing).

Se eu fosse tão mau como eles dizem, dificilmente usaria palavras do calibre de uma "inércia" ou um "diletantismo" para me caracterizar, em defesa dos meus valores. Eis, pois, o tamanho do seu erro.

De qualquer forma tenho um problema, mas não tenho dinheiro. Ou melhor, o problema que tenho é o de não ter dinheiro. Essencialmente, tenho que ter dinheiro para não ter problema. Claro? Donde, não posso sair de casa sem mais nem menos - dinheiro.

E depois - sabes como é - gosto daquele sofá, em que me entrego à evangelização capitalista por séries de qualidade dúbia, com os meus dois melhores amigos: o Häagen e o Dazs. Huh... eles são estrangeiros. Da Hungria. Muito porreiros.

De qualquer forma, dizia eu, quero liberdade. Mas também as contas pagas e a comida à minha espera no tacho (ainda tenho que a pôr na mesa...). Eis o paradoxo. E como é que se resolve este paradoxo? Impossível, dirás tu. Mas só o dirás porque és um bocado implicativo.

A solução é muito simles, na verdade: arranjei-me um vírus Dagripá. Suponho que foi baptizado após um senhor estrangeiro, Dagripá, justamente, o ter identificado. Pergunto-me se também seria húngaro.

De qualquer forma, posso dizer-te que foi um descanso cá em casa a partir do diagnóstico positivo. Só eu, os meus germes, o Häagen e o Dazs (eles têm imunidade baunílhica), a ver DVDs.

Já dura há mês e meio, esta quarentena. Aliás, acho até que quando dura tanto tempo deve ser chamada 'quarentona', de maratona. Não me perguntes... Medicinices.

E não há perspectivas de melhoras - felizmente. Sempre que os meus pais aparecem à janela a perguntar, eu respondo-lhes: "Não... Ainda não. Curado cá em casa só o queijo de cabra. E olha - por acaso está a acabar. Podem trazer mais".

Querido Diário - 25

Novamente aqui te afirmo que não desistirei. Que irei lutar contra tudo, e contra todos, tanto tempo quanto necessário para o conseguir. A História é dos que não desistem. Não desistirei.

Ao certo aquilo que quero conseguir, e de que nunca desistirei... não sei bem o que seja, por ora. Mas certamente que te garanto isto: não vou desistir de o saber!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O Verso

As pessoas às vezes perguntam, e eu costumo responder: só pode ser poeta quem tiver um grande amor ao verso.


I Appreciate The Input

Um bocado farto da modorra/masmorra destes dias. Acordem, chabais!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Querido Diário - 24

Tenho um vizinho absolutamente anormal, que tosse como um cavalo, com uma certa ostentação e orgulho, da sua varanda. É como se fosse o seu grito de Tarzan, a marcar terreno na 'selva de betão. Trinta anos, solteiro, desempregado, a viver com a mãe. Típico. Decadente.

A minha mãe, no entanto, acha que é um problema de saúde genuíno. Isso faz-me tanto mal aos nervos que quase penso em sair de casa. Quase - geralmente fico-me por um copo de leite e biscoitos.

Ainda bem que estou nos meus vinte, e não tenho tosse. Imagina a decadência que seria.

Querido Diário - 23

Quando falo com a R. ao telefone, detecto enjoo. Detecto frete, um certo je-ne-sais-q'éste-gajo-outra-vez... . E fico sempre na dúvida. Há duas hipóteses, meu caro Watson: ou ela não gosta que eu faça de educado porque soube aquilo que eu disse dela (embora aquele 'vaca tresloucada' fosse essencialmente carinhoso), ou então ela é mesmo assim 'full-time'. Devo desistir de ser cortês? É certo que também me sinto algo hipócrita.

Há uma terceira hipótese, meu caro Watson, mas envolve uma invasão de marcianos para colonização da Terra. E isso, como bem sabes, é altamente improvável - desde que isto começou a aquecer, os gajos descartaram este planeta.

Querido Diário - 22

Se os outros também conseguem, porque não eu? Vai daí enchi-me de coragem, e fui cortar o cabelo a um "cabeleireiro". Nunca percebi o nome de "cabeleireiro". É certo que se lida com cabelos, mas não existe - por sinal, no mesmo espaço - "pedicure" para as unhas, ou "manicure" para as mãos? Porquê "cabeleireiro"? É que sabe mal dizer a palavra, tem muitos 'e's. Cansa - e certamente não fará nada bem a uma pessoa que lá trabalha, andar a ter a língua sempre em esforço por tantos 'e's.

E deve ser essa a razão porque o "cabeleireiro" que me atendeu seria maricas. Ora, eu sou um indivíduo tolerante, mas esta coisa de andar com as mãos por toda a minha cara - onde nem há cabelo - mexe com a minha religião. Quando o indivíduo começou a rapar-me os pêlos das costas e eu não sabia onde é que aquilo ia parar tive que franzir o sombrolho à Salomão. Acabou a perguntar se queria ser eu a pentear-me no final.

Faz mal às pessoas, esta coisa de dizer "cabeleireiro". Faz muito mal.

Querido Diário - 21

Esta tarde, ia eu a passar pelo sinal em frente à bomba - eis que um carro pára no sinal verde. De súbito, tento ultrapássa-lo, mas a manobra leva demasiado tempo e quando passo a linha já os carros do outro lado estavam a avançar. Nisto, acelerei. Que rasa.

Olho então para a esquerda para pedir desculpa, e no carro a reclamarem comigo estão o meu primo Amílcar, com a sua pêra à Mefistófeles, óculos escuros, ar 'pit-bull', e um coelho enorme, com uma barriga castanho-escura onde distingo pela janela as letras "CELL". Ainda levantando a mão a desculpar-me, com medo que a minha cabeça explodisse de vergonha, pareceu-me ver o coelho - se bem que agora os meus olhos estivessem concentrados na estrada - a dizer algo que não conseguia ouvir. De alguma forma, porém, dava para ler os seus lábios: 'O que é que estás a fazer nesse estúpido fato de condutor?', perguntou ele, antes dos palavrões. Ao seu lado o primo Amílcar nem olhava para a estrada, só dizia que a tia havia de saber, e que ele sempre desconfiara que eu era daqueles. Seguiram-se mais palavrões.

Encostei para pensar um pouco em tudo aquilo. Estava assustado, e suado, senti-me subitamente diferente. E desde logo prometi nunca mais fazer sonecas depois de beber vinho verde no tempo quente.

domingo, 23 de agosto de 2009

Verão: Allegro Ma Non Molto

Aqui.

Twice

Pior que ser intrujado por Bernie Madoff, só mesmo ser um consorte intrujado. Eis a história da amante de Madoff:

sábado, 22 de agosto de 2009

Querido Diário - 20

Hoje o A. tentou fazer as pazes entre mim e a L.. Mas as coisas não são assim tão simples, não desaparece tudo de repente como se nada fosse. Eu sei que ela queria fazer aquele corte com a folha de papel. E usou o papel mais grosso justamente com esse intuito, aproveitando a maneabilidade. Não é preciso ser um Poirot para o perceber.

Não, certas coisas simplesmente não podem passar o filtro.

Querido Diário - 19

Tive uma namorada que dizia que eu beijava como uma esfinge. O grave é que - como de costume - a relação não chegou ao ponto do beijo na boca. Ah... e agora percebo porquê.

Querido Diário - 18

Quando voltei a casa, um indivíduo num carro, com ar de pertencer à máfia russa (e o indivíduo também não tinha grande aspecto) ficou inusitadamente à espera no final da rua. Suspeito estar novamente a ser vigiado. Voltam os fantasmas do tempo em que a C.I.A. mandava um agente à paisana para a matança do porco. Via-se logo quem era o gajo - nunca chamuscava as unhas como deve ser.

Querido Diário - 17

Hoje uma mulher - para mais casada - deu-me o seu telefone e morada. Isso não acontece a qualquer um. Além disso, quando fechei o registo de cliente no computador, ela sorriu de maneira desconcertante ao dizer 'Boa tarde'. No meu dicionário, era um 'Desejo-te...'.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Bluff

Diz-me a partir de que momento
Tudo se tornou
Carnal, igual,
Banal...
Para que canal mudei eu...?

Tudo se tornou tão previsível
E acaba repetida
A regra mais simples;
Não fosse o sonho o fusível
Que nos incendeia a vida,
Não fosse o sonho a folia
Que pede uma decisão:
A racional atonia
Joga póquer
Com selvagem ambição.

A vida, o mundo
Todos nos dizem que não
Agora não!
Justamente agora não!
E, com dinheiro na mão
Sozinhos
Assim veremos o mundo,
Passando na televisão.

Pedro Oliveira

Querido Diário - 16

Há quem não aprove completamente o meu estilo de vida. Por outro lado, há quem o não conheça.

Querido Diário - 15

Eu sei que te prometi que não ia falar de política... e - olha - já acabei.

Querido Diário - 14

Acho que sou preguiçoso. Eu ficava bem era como o amante de uma mulher com uma vida desgastante. Apesar do que eles dizem dos gajos anafados de óculos eu sinto-me um 'lover - not a fighter'.

Mas dizia que sou preguiçoso. E culpo os genes da minha mãe por isso. Aliás, eu costumava refazer o ditado 'a Preguiça é a mãe de todos os vícios' para apenas 'a Preguiça é a mãe'.

Querido Diário - 13

Se a minha felicidade envolve festas loucas com mulheres bonitas, porque é que nada disso parece remotamente provável, huh? Ter-me-ei esquecido de enviar algum papel para um departamento de Estado?

Vou antes optar pelo plano B: apaixonar-me por uma miúda impossível e depois emigrar para me juntar à Legião Estrangeira.

Espera - aquilo está cheio de franceses.

Querido Diário - 12

Atenta nisto: se há uma estátua para o soldade desconhecido, porque não uma para o 'púdico desconhecido'. Lembrei-me disto hoje ao pensar em como o enorme esforço que faço evitando olhar para os seios das mulheres que atendo não será nunca apreciado por ninguém. 'Em memória dos que reprimiram os seus instintos - e assim sustentaram o equilíbrio da sociedade portuguesa'. Ia ficar lindamente ali no Marquês de Pombal.

Querido Diário - 11

Tenho medo que os vizinhos do prédio em frente me vejam a andar nu pela casa. Não quero ter que ir para o rés-de-chão - outra vez.

Querido Diário - 10

Hoje comi pizza ao jantar. Estava medíocre. Era uma pizza sem dignidade, pastiche demais. O tipo de pizza que te faz querer ser rico para ir viver em Itália até ao ponto de sentir saudades desta terra, e desta pizza, que 'mesmo horrível, tinha o seu encanto'.

Já Me...

Como é que era aquela história do 'fui comprar cigarros e voltei com uma apólice de vida'?

Sabemos que aquela senhora é uma boa vendedora do Citigroup quando seguir em frente sem fazer o tal cartão de crédito nos faz sentir absolutos "cafagestes".

O Perímetro da Não-Perversão

É ingrato, verdadeiramente ingrato usar óculos, ser gordo, e vestir de forma desconcertante. Por exemplo, nós - eu sei que há mais por aí - temos menos que um segundo para olhar para uma capa de uma celebridade desnudada pelo Verão. É que se demorarmos mais, começa a soar um alarme silencioso de 'gajo pervertido', quando para o macho português genuíno - alguma coisa entre usar gel a mais, caminhar com as pernas a atirar para os lados e receber subsídio de desemprego muito caladinho - olhar mais tempo é 'curiosidade natural'.

Um gajo anafado de óculos tem que ter muito cuidado: o perímetro da não-perversão é, para ele, muito menor.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Querido Diário - 9

Penso que no fundo às pessoas, quando olham bem para mim, lhes apetece perguntarem-me qual o sentido da vida, e não somente "tem as horas?". Apenas se acobardam.

Querido Diário - 8

Perdi o meu relógio outra vez. Perdi outra vez tempo à procura dele. Talvez se o próximo relógio for "ana"-lógico eu ganhe tempo ao procurá-lo.

Querido Diário - 7

As mulheres continuam a ignorar-me, e eu não percebo porquê. No meio de uma crise, devem aproveitar-se todos os recursos, certo? Quando disse justamente isto a uma morena esta manhã, ela respondeu-me que andava à procura de "um homem com soluções". E eu asseguro-te que, quando mais tarde fiquei sozinho a chorar no armário, soluçei bem alto.

Querido Diário - 6

Ainda a propósito dos meus impulsos violentos, ao ouvir o "Ameno" na rádio da cozinha, concebi que talvez a solução para os meus problemas se resolvesse saltando para cima de um cavalo e indo combater gloriosamente os espanhóis. Mas num movimento de ensaio, bati com o dedo grande numa das cadeiras - e decidi adiar.

Querido Diário - 5

Não vou continuar com o Krav Maga. Ao treinar em casa os movimentos de ataque no vazio... perdi para o vazio.

Querido Diário - 4

Não suporto mais o arrogante do J.! Sempre a meter-se à frente do I.!

Querido Diário - 3

Conheci uma rapariga que é capaz de gostar de mim como eu sou. Sei isso porque lhe perguntei o que queria ela da vida, e a sua resposta foi: "Nada de especial".

Querido Diário - 2

A minha vida tresanda. Por alguma razão, os rios de dinheiro tardam em fluir na minha direcção. Esperava que o ar de intelectual angariasse investimento, mas acho que já fui topado. A minha bem desenhada caligrafia já não causa a mesma admiração e temo estar perto o dia em que as pessoas vão exigir que eu prove - além da aparência - ser um intelecto brilhante.

É estranho sentir-me assim, um Madoff e pobre - ao mesmo tempo.

Querido Diário - 1

Decidi fazer algo para dar vazão aos meus impulsos violentos - há aí bastantes gajos a pedirem-nas. Apesar do meu ar enfezado, e de óculos, apetece-me a ocasional sessão de pancadaria à Dragonball, da mesma forma que ocasionalmente me apetece pizza. É dias.

Vai daí, começei a fazer Krav Maga. E, desde logo, as pessoas passarão a perceber isso mesmo - e a temer-me saudavelmente - quando eu disser que faço Krav "Mágá". A acentuação é tudo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A 3ª Época

Amanhã tenho o primeiro da próxima época de exames.

Esperemos que corra como desejo.

Esquilo Complicado

Esquilo complicado,
No seu buraco guardado
A trabalhar...
Sozinho a guardar
Intenções de esquilo
Para acasalar.

Esquila tem-no enganado
Mas este é um Esquilo complicado
Demais para o poder ver -
Esquilo mal-humorado
Embevecido
Cego, raivoso de prazer.

Esquilo não sai da árvore
Nem deixa outros esquilos entrar -
Rói sozinho
O plano, de acolher
A Esquila a seu prazer.

Perde esquilos no caminho -
Ninguém gosta
De um esquilo complicado,
Raivoso, temperamental.

Excitado
Ruivo, coçado,
De ânsia carnal,
Já morde outros esquilos
Sem saber do mal
Que guarda com as nozes
Para o Inverno.

Esquilo idiota,
Vai gelar sozinho
Sem nenhum vizinho
Para o ajudar...
Sem Esquila sequer
Para o enganar.

Ninguém ama
Um esquilo selvagem,
Que morde quem passa -
E as Esquilas agem
Para o bem da raça.

Pedro Oliveira

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Poseur


Tenho exactamente a mesma opinião que Krugman sobre Niall Ferguson. E se ele soubesse como há uns quantos desses por cá...

sábado, 15 de agosto de 2009

O 'Affaire' Playboy II

Eis, pois, o primeiro dos textos que fiz para a Playboy.

Hound Dog

“- Ó valha-te Deus! Então tu foste trabalhar para um revista de mulheres nuas?!”.

“- Tia, não é uma revista de mulheres nuas. É a Playboy. É uma revista sobre mulheres, para os homens que gostam de mulheres. E olhe que isso qualquer dia passa a ser uma excentricidade. Não tem nada de ordinário.”

“- Tantos anos a estudar para isso? Podias ao menos ter tentado trabalhar numa empresa decente – olha, como o teu primo, que até era pior que tu na escola!”

“- Ó tia…”

“- Valha-te Deus, homem.”

A minha tia - se ela existisse - não seria das pessoas que compram a Playboy pelos artigos. Na verdade, nem pela nudez artística. Ela simplesmente não compraria a Playboy. O que seria uma grave lacuna, porque não faltam revistas em Portugal que, mesmo se tivessem nudez, ainda não valeriam a pena serem lidas. Esse seu argumento em nada me iria apoquentar.

“- Mas ouve lá.” Perguntaria ela num segundo momento, já com um requinte de malvadez. “- O que é que tu sabes sobre mulheres para ires trabalhar numa revista dessas?”.

Essa pergunta, sim, é que ia magoar. Porque feita assim directamente, exporia todo o meu ‘bluff’. Se ela existisse, a minha tia saberia certamente que eu me faço passar por mulherengo, mas que, de facto, o ‘game’ para estes lados é fraquíssimo.

É certo, agora que trabalho na revista, a maior parte dos meus amigos começou a efabular cenários sobre uma espécie de Nirvana erótico – que aumentaria exponencialmente a minha vida amorosa. Desde logo, pensam que fazemos a revista aos nossos computadores, sendo gentilmente servidos margaritas por coelhinhas deslumbrantes – quando na realidade nenhum de nós consome bebidas alcoólicas na Redacção. Folias, canso-me de lhes repetir.

Mas voltando à minha história pessoal, eu convivi com ‘playboys’ pelos anos, e ouvia as suas histórias tentado aprender, mas, no meu caso, a coisa não desenvolvia. E eu, em vez de burilar a arte da sedução como queria, dei comigo a namorar a sua irmã mais feia: o queixume. É como na canção do Elvis:

“You ain’t nothing but a hound dog/Cryin’ all the time/Well, you ain’t never caught a rabbit/And you ain’t no friend of mine”

Porque é que, nesse caso, a Playboy me contratou? Bom, os mais cínicos falarão em alívio cómico – mas eu gosto de pensar que é, justamente, para ajudar os ‘hound dogs’ como eu a converterem-se em ‘playboys’. Esse, aliás, é o meu modesto projecto de vida.

E não me digam que não - eu sei que há bastantes por aí. Alguns meses após esta crise económica, saiu uma notícia a dizer que a líbido portuguesa também havia sofrido um forte rombo. Depois das acções e dos empréstimos – que eu por acaso e pé rapado não tinha – o sexo foi o meu terceiro ‘crash’ por simpatia: não tendo nenhum, passei a ter muito menos. Daí se deduz que neste momento não faltam portugueses parecidos comigo – o que, a propósito, não augura nada de bom para a nação.

Mas isso é algo que vamos mudar, urgentemente – a meu bem, ao vosso, e ao da nação. É para isso que está cá a Playboy – para restaurar a sedução em Português.

“- Sinceramente!”, como diria a minha tia. E acho que não vou ter mais esta discussão sobre a minha carreira com ela, uma vez que me disse estarem adiados sine die os jantares em sua casa. Tudo bem, suponho. É menos uma assinatura que eu tenho que arranjar para o seu filho adolescente, deliciado com o facto de ter “um primo na Playboy!” – se ele existisse, claro está.»

Nota: os direitos de autor do texto anterior pertencem à empresa Frestacom.

O 'Affaire' Playboy I

Dizia eu no outro dia que a minha primeira entrevista de emprego foi com a Playboy Portugal. Logo a seguir ao primeiro número.

História simples: recolhi algumas coisas que tinha escrito e enviei-lhes. Como o meu 'sonho' (as aspas estão por pudor, porque perco a conta aos sonhos e tendo a mudar enquanto vivo) é escrever - escreveria de graça para o 'Dica da Semana' - tanto lhes fiz saber. Ainda mais 'sonho' se fosse na Playboy - porque, tendo em mente as edições americana e brasileira, eu adoraria tentar um estilo de escrita fresca (em mais que um sentido), abordar um número de temas muito 'meus' que, parece-me combinariam muito bem com a revista.

Para minha surpresa, as pessoas da Playboy foram amáveis o suficiente para me conceder uma entrevista. Honestamente, não estava à espera. Aceitei imediatamente, porquanto mais tarde - face à minha absoluta inexperiência no meio - tenha começado a recear ir seriamente desperdiçar o tempo de alguém.

A entrevista correu muito bem, contudo, e consegui explicar aquilo que queria fazer. Tratar temas como este, por exemplo. Quem segue os meus blogs há algum tempo (obrigado, primo Jacinto!) sabe do que estou a escrever.

Levei um artigo comigo, e aí pediram-me outro. O responsável pela edição disse que gostaria de me ver 'muito em breve'. Suponho que tivesse passado à próxima fase.

A história acabou aí, porém. Ainda fiz um segundo artigo, mas a hipotética carreira de jornalista/colunista ('mas nós só queríamos que você ficasse encarregue de dobrar envelopes, homem!'), teve que ficar para trás por uma questão meramente financeira. Vai daí, farmacêutico há 3 meses, ainda com pontas soltas do curso para terminar.

Não digo que seria uma escolha fácil, imediata. Mas acontece que, de alguma forma, não a pude sequer exercer. Até concedo à crítica abafada de alguns a quem contei esta história: talvez eu estivesse a jogar 'fora da minha liga'. Mas eu nunca menti em nada. Eu nunca disse que era um playboy, ou um mulherengo. Aliás, a piada do conceito estava justamente aí, na visão do soft-nerd que vê tudo à distância. Eu nunca fui um gajo 'hardcore' - o meu projecto envolvia escrita criativa, diversificada nos temas, com, sobretudo, humor.

Para 'softcore' a revista, que já tinha Nuno Markl, passou a contar com Miguel Esteves Cardoso - donde esse 'nicho' está mais que bem preenchido, por mais que eu esteja convicto que faria algo de diferente. Quem não está, afinal?

Pensei numa rubrica, de um indivíduo anónimo, desde sempre deslumbrado por mulheres, mas , por qualquer outro factor misterioso (já que não lhes faltam amigos camafeus ou namorados idiotas), obrigado a contemplá-las à distância. Que contasse os minutos de uma vida pelas mulheres bonitas com que nunca falou... Para quem me conhece, portanto, um sujeito perfeitamente fictício.

Chamei a essa 'coluna' Hound Dog, e explico porquê no primeiro dos dois textos que escrevi, e que publicarei de seguida neste blog.

O Merovíngio

Só me faltava agora - um Merovíngio - na minha vida. Determinístico e pedante - preto e branco, e nada mais que preto e branco. Nauseante na sua certeza, racista para com a imperfeição, juiz sem mandato. Unívoco no seu julgamento - de toda a estupidez humana em seu redor.



Fatal, porém, é somente a incompletude, na sua análise dos elementos...

Merovíngio, lembra-te: 'The problem is choice'.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Limerick

"When I look back on my childhood I wonder how I managed to survive at all. It was, of course, a miserable childhood: the happy childhood is hardly worth your while.

Worse than the ordinary miserable childhood is the miserable Irish childhood, and worse yet is the miserable Irish Catholic childhood.

People everywhere brag and whimper about the woes of their early years, but nothing can compare with the Irish version: the poverty; the shiftless loquacious alcoholic father; the pious defeated mother moaning by the fire; pompous priests; bullying schoolmasters; the English and the terrible things they did to us for eight hundred long years. Above all – we were wet. Out in the Atlantic Ocean great sheets of rain gathered to drift slowly up the River Shannon and settle forever in Limerick."

( excerto de "Angelas'Ashes")


Em memória de Frank McCourt, autor de "Angela's Ashes", um livro que me marcou especialmente. E que me fez querer conhecer - "um dia" - a Irlanda, passar pela sua malograda Limerick. Um bom livro para chegar a termos com estes nossos tempos.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Parte II



Just kidding, guys.

(Acho bem).

A Hundred Friends

Gostei especialmente deste.

"(...)
Yet as my leave of living ends,
With looks
Of love I view a hundred friends,
My books.

(Robert Service)"

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Um Crime Foi Cometido

Um crime foi cometido -
Há um cadáver no chão.
Sangue...
Alguma longa tentação
Não resistiu aos sinais
Quais terão sido?

Quem matou?
Quem finge, quem esconde
O que pensa?
Quem urdiu este momento?

Olha para o relógio
Repara como continua a passar
O tempo.

Diz-me
O que ouviste dessa noite,
Diz-me o que disseram eles -
E só depois
Quem está a mentir.

Lembra-te:
O Homem esquece-se sempre
Do limite do seu reino,
Do seu erro...

Estudaste bem a lição?
Pois bem - diz-me quem mente
Um crime foi cometido -
Há um cadáver no chão.

Pedro Oliveira

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ó Diacho...!

É verdade... Já vos contei aquela história de a minha primeira entrevista de emprego ter sido para a Playboy Portugal?

A Morte No Meu Refúgio

A Morte esta noite - ouvi-a
No meu refúgio.
A Morte esta noite - senti-a
Perto de mim,
Dos meus livros,
Das minhas loiças,
Das minhas janelas.

Como nunca pensei antes
Que a Morte podia visitar
Sem bater à porta?
A Morte não sabe o que é
Fora ou Dentro:
Com seus distintos demónios,
Ela é tudo o que há
E o meu refúgio -
É o que há também.

A Morte ouvi-a a tempo
(Porque alguém me avisou)
Denunciou-se
Numa concordância a mais -
A desgraça
Também vem do silêncio.

E a Morte que me disse
Quando a reconheci?
Nada -
Apenas se fez ouvir;
A Morte
Tem sempre vidas, contemplações -
Refúgios -
Que destruir.

A Morte hoje passou por cá,
A sua cara não me era estranha...
Ah, a própria Vida -
Quanto nos cega!
A Morte é tudo aquilo que há
De estático e eterno -
Que num instante se renega.

Pedro Oliveira

sábado, 1 de agosto de 2009

Alquimia II

Precoce, a segunda vez que aquele médico via a Srª. Franco. "- Sr. Doutor", disse-lhe ela, "o meu filho continua estranho. Veja estas aftas nos lábios deles. Aqui, veja lá."

O Dr. Machado - assim era o segundo nome daquele médico - viu, no instante da pressão silenciosa, nas críticas violentas a alguns segundos a mais de distância, outra vez o mapa da face de Artur. Não havia nenhum sinal de nada de diferente na criança. "- Não vejo nada de novo em relação a ontem". Ontem tinha perdido uma hora com a Srª. Franco. Uma hora - para resolver um caso tão simples. Trouxera a sogra consigo, por alguma razão infeliz já aquela espécie de pessoa sem reverência por médicos - ainda menos por um médico jovem. "- Olhe que o marido dela", assim se referindo à Srª. Franco, "levei-o eu nos braços, com febre, para o hospital, porque tinha..." e ninguém o havia diagnosticado. O normal não chegaria para aquela senhora. Sem a agressividade da sogra, a Sr. Franco continuava o mesmo programa. Como um polícia 'bom' - de um rendilhado enjoativo - se seguia ao polícia 'mau', de falta de contemplação assumida.

"- Não, ele não tem nada".

"- São aftas, Sr. Dr.?", respondeu a Sr.ª Franco.

"- Não. Vamos só cumprir com o que prescrevi ontem, pode ser?".

"- É que ele estava com febre de 39ºC."

"- Por isso lhe prescrevi o antibiótico. E os medicamentos para a febre."

Não havia maneira rápida de convencer a Sr.ª Franco a fazer apenas o trivial, a cumprir com as conclusões de ontem. De repente, o Dr. Machado lembrou-se de um evento numa urgência, num hospital inglês, onde trabalhara brevemente em intercâmbio. Uma noite, viu a própria morte perto, no fundo do olhar de um adicto que se voltara contra ele, em loucura.

"- Acha que são aftas, Sr. Dr.?"

"- Não, não se preocupe. Faça só o antibiótico."

Alquimia I

Esta manhã fui visitado por um mafioso. Encostou-me à parede e disse que eu lhe devia algo. Disse que eu o conhecia embora não me lembrasse. Tinha uma faca na mão, julgo que tinha uma faca na mão. Era grande, gordo, tinha os olhos raiados de sangue, de fúria.

Encostando-me a um beco disse que eu lhe devia algo. E eu não me lembrava do que seria.

"- Devias saber sem que te o dissessem. Ouviste? Devias saber, meu estuporzinho! Lembras-te ou não?"

Não me lembro.

Gritando, deu-me um pontapé entre as pernas, a dor calou-me ainda mais. Mas não me lembrei ainda do que lhe devia. E porque não dizia ele de uma vez o que era, afinal?