sábado, 15 de agosto de 2009

O 'Affaire' Playboy II

Eis, pois, o primeiro dos textos que fiz para a Playboy.

Hound Dog

“- Ó valha-te Deus! Então tu foste trabalhar para um revista de mulheres nuas?!”.

“- Tia, não é uma revista de mulheres nuas. É a Playboy. É uma revista sobre mulheres, para os homens que gostam de mulheres. E olhe que isso qualquer dia passa a ser uma excentricidade. Não tem nada de ordinário.”

“- Tantos anos a estudar para isso? Podias ao menos ter tentado trabalhar numa empresa decente – olha, como o teu primo, que até era pior que tu na escola!”

“- Ó tia…”

“- Valha-te Deus, homem.”

A minha tia - se ela existisse - não seria das pessoas que compram a Playboy pelos artigos. Na verdade, nem pela nudez artística. Ela simplesmente não compraria a Playboy. O que seria uma grave lacuna, porque não faltam revistas em Portugal que, mesmo se tivessem nudez, ainda não valeriam a pena serem lidas. Esse seu argumento em nada me iria apoquentar.

“- Mas ouve lá.” Perguntaria ela num segundo momento, já com um requinte de malvadez. “- O que é que tu sabes sobre mulheres para ires trabalhar numa revista dessas?”.

Essa pergunta, sim, é que ia magoar. Porque feita assim directamente, exporia todo o meu ‘bluff’. Se ela existisse, a minha tia saberia certamente que eu me faço passar por mulherengo, mas que, de facto, o ‘game’ para estes lados é fraquíssimo.

É certo, agora que trabalho na revista, a maior parte dos meus amigos começou a efabular cenários sobre uma espécie de Nirvana erótico – que aumentaria exponencialmente a minha vida amorosa. Desde logo, pensam que fazemos a revista aos nossos computadores, sendo gentilmente servidos margaritas por coelhinhas deslumbrantes – quando na realidade nenhum de nós consome bebidas alcoólicas na Redacção. Folias, canso-me de lhes repetir.

Mas voltando à minha história pessoal, eu convivi com ‘playboys’ pelos anos, e ouvia as suas histórias tentado aprender, mas, no meu caso, a coisa não desenvolvia. E eu, em vez de burilar a arte da sedução como queria, dei comigo a namorar a sua irmã mais feia: o queixume. É como na canção do Elvis:

“You ain’t nothing but a hound dog/Cryin’ all the time/Well, you ain’t never caught a rabbit/And you ain’t no friend of mine”

Porque é que, nesse caso, a Playboy me contratou? Bom, os mais cínicos falarão em alívio cómico – mas eu gosto de pensar que é, justamente, para ajudar os ‘hound dogs’ como eu a converterem-se em ‘playboys’. Esse, aliás, é o meu modesto projecto de vida.

E não me digam que não - eu sei que há bastantes por aí. Alguns meses após esta crise económica, saiu uma notícia a dizer que a líbido portuguesa também havia sofrido um forte rombo. Depois das acções e dos empréstimos – que eu por acaso e pé rapado não tinha – o sexo foi o meu terceiro ‘crash’ por simpatia: não tendo nenhum, passei a ter muito menos. Daí se deduz que neste momento não faltam portugueses parecidos comigo – o que, a propósito, não augura nada de bom para a nação.

Mas isso é algo que vamos mudar, urgentemente – a meu bem, ao vosso, e ao da nação. É para isso que está cá a Playboy – para restaurar a sedução em Português.

“- Sinceramente!”, como diria a minha tia. E acho que não vou ter mais esta discussão sobre a minha carreira com ela, uma vez que me disse estarem adiados sine die os jantares em sua casa. Tudo bem, suponho. É menos uma assinatura que eu tenho que arranjar para o seu filho adolescente, deliciado com o facto de ter “um primo na Playboy!” – se ele existisse, claro está.»

Nota: os direitos de autor do texto anterior pertencem à empresa Frestacom.