quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A Amnisita Fiscal - Uma Questão Capital

Abram os olhos para um caminho para diminuição do défice, chabais: a amnistia fiscal.


Não é bonito - mas em tempo de guerra não se limpam armas.

E a minha segunda proposta passa por meter as mãos no emaranhado de "direitos adquiridos" da Segurança Social". Hei - mas eu sou assim.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Dias de Poesia

Ainda nesta Coisa Nossa, Francisco José Viegas.

Mas Eu Não Aprovo a Linguagem

Colhido numa distracção,
O vento lá fora rasga o baixo céu.
À porta, há uma tempestade.

"Ponha-se em sentido,
Soldado contemplativo!,
Não seja besta,
Preste atenção!"

Sujam com palavras o ruído antigo
Da rebentação.

"Veja que grande, esta alhada -
Mas você não se envergonha?
Está com a vida parada,
Pela merda de vida que sonha!"

O vento não entrou pela porta, ainda não -
Silêncio.

O mau tempo ficou além, encantante,
Por mais um dia (quantos faltarão?).
E por baixo da última pedra, restante,
Há uma última razão.

Tanta moral de ocasião...
Que foge de pecado escondido -
Convites, se estiverem à mão
Os olhos de um sonhador perdido.

Durará
O tempo que durar,
Até que haja a desviar
O curso à própria viagem.
Até lá -
Nada há que ripostar a uma ilusão...

Mas eu não aprovo a linguagem,
Ah... concerteza que não.

Pedro Oliveira

domingo, 20 de dezembro de 2009

Rubgay

Elogios para a coragem de Garreth Thomas, que os meus pais também me ensinaram a ser politicamente correcto. Mas eu tenho que dedicar esta aos... betos que conheci ao longo dos anos, que desdenhavam o futebol - como se o Rugby fosse 'o' desporto másculo puro, essa Irmandade da Testosterona. Joke's on you now.

Cuidado com as placagens.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O 'Affaire' Playboy III

Agradecimento a R., que me recordou da entrevista para a Playboy. Ao falarmos, apercebi-me de que ainda não tinha aqui publicado o segundo texto que escrevi.

Tem já marcas do tempo em cima - a esta distância parece-me barroco, (título algo foleiro, desde logo), de romantismo irritante, a espaços. Parece ingénuo, de deslumbre parvo. Parece quase um erro. Duvido que ainda seja "assim" em relação às mulheres. Ter-me-á a vida mudado? Tão cedo?


Pergunto-me se os últimos tempos - em que tenho vindo a orientar a minha vida mais no sentido profissional, para um modus vivendi que é a antítese de escrever para a Playboy, um perfeito "anti-erotismo" são a causa. Talvez sejam. Certamente que não será o meu físico apolíneo e charme desarmante - imaculados.

Ainda assim, tudo dito, eu gosto do texto, ou gosto dele exactamente por ser imperfeito. Era um 'podia ter sido assim...' muito giro de revisitar.

Donde, eis o segundo texto, de que relevo as minhas passagens favoritas.

Au Bonheur Des Dammes

"Suponho que tenho esse defeito de gostar de mulheres. Tantas vezes, não me lembro de pormenores, nomes, datas, números. Mas nunca me esqueço do matiz de um olhar, do tom exacto de uns cabelos, de formas enquadradas num momento gracioso.

Já tenho pensado se dizê-lo, escrever sobre tal pequeno deslumbre, sobre a ficção em suspenso atrás de uma rapariga, ou de uma mulher – é, ou possa ser, obsceno. Não pelo puritanismo em si – a que eu ligo pouco – mas pela insinuação moral de uma crise económica, que julgará ditos temas como supérfluos, quase nefelibatas.

Acabo, no entanto, a pensar que esta crise é, ao inverso, e justamente, o momento para elogiar as mulheres, e para as amar ainda mais. Desde logo, são elas o primeiro elemento da paz – e nem é preciso uma justificação como esta crise para os homens criarem guerras. Eles conseguem fazer isso gratuitamente.

Mas de uma análise simples às sociedades humanas percebe-se que o amor, e o sexo, são também uma maneira de resolver os problemas. Quando a pressão aumenta, as mulheres tornam-se mais desejáveis, os homens mais interessados e comprometidos – e a solução, tantas vezes, nasce. Pessoalmente, prefiro pensar nessa teoria, mais do que na tese – fácil – de ‘convulsões sociais’.

Às mulheres devemos, portanto, a paz, a resiliência, o motivo – e a solução. Como não gostar delas? Como não as amar, e desejar?

E bom, a verdade é que o calor também ajuda a isso – sejamos francos. Mas durante muito tempo, a mim em particular, nada ajudou. Muito menos o frio do Inverno, se me recordo bem. A verdade é que, como já escrevi antes, eu estive sempre longe de ser um mulherengo – mas nunca por falta de vontade. Persistência, aqui, é a palavra-chave.

Um ‘hound dog’ tem sempre essa prioridade: deixar de o ser. E, com esse fim em mente, a minha relação com as mulheres passou a ter duas naturezas distintas: à vez, contemplativa e arrojada.

Contemplativa, por exemplo, quando, sentado num qualquer café, pela porta entrava de súbito uma rapariga impetuosa, de belo olhar, ou uma mulher sugestiva. Enquanto ela conservava – ou exibia – o seu charme pelo espaço, pela curiosidade alheia, o tempo parava realmente, e qualquer rotina passava a ter sentido, passava a ter sabor.

Curiosamente, a presença de mulheres bonitas num espaço, embora eu nelas repare, é, para mim, profundamente relaxante. Não faltam homens que se alterem, fiquem sobressaltados, como se elas perturbassem a ordem das coisas. Para mim, elas sempre foram a restauração dessa ordem, nunca o contrário. Como se eu estivesse à espera delas, e agora que elas estão, tudo esteja enfim no seu lugar.

Sinto-me então como aqueles velhos edifícios milaneses, que só aguentam a postura arquitectónica, ao ar inquinado, e calor da cidade, por causa delas. À tarde, com estilo impecável, e passada exacta, as italianas percorrem a rua, saindo do trabalho, sempre com destino certo. Olham - e são olhadas. Afagam com a visão do seu passar os vetustos edifícios, que aguentam assim mais um dia, mais um mês, um ano, uma vida. Por elas. E pensam os ‘carabinieri’, naquele seu jeito andarilho, que são eles a manter a ordem na cidade…

Eu até gosto de dizer que, no meu caso, a paz de espírito não carece de um retiro no Tibete, milhões no banco, ou teste aos limites – basta uma sala não demasiado barulhenta, plena de mulheres bonitas. Não peço muito. Deve ser uma costela meridional – e eu gosto bastante de a ter. Alguns dirão disso ‘pequeno-burguês’, ou ‘vem no Eça!’, mas – se eu estiver nessa minha sala – nada disso me apoquenta realmente.

A certa altura da adolescência (maioritariamente contemplativa) tive também o meu curto período de arrojo. Como não? Sobretudo no acto, tão singelo e falível, de dirigir a palavra a uma rapariga - ou, com sorte, as palavras.

Fiz, inclusive, com um amigo ou outro, um concurso de ‘tampas’. O importante era desenvolver a capacidade – para um miúdo tímido – de falar. Com o adicional trágico de os meus amigos serem sempre piores que eu nessa arte (e raramente cumprirem a vez deles…).

Mas é importante saber lidar com a rejeição. A certa altura, era só mesmo isso que eu ambicionava. Até porque – com grande satisfação minha – elas não percebiam que se me ‘dessem bola’... aí sim, é que eu não tinha a mais pálida ideia do que fazer.

Geralmente, eu apontava alto. Queria logo levar uma ‘tampa’ de uma rapariga muito gira, definitivamente fora da minha liga. E os meus amigos avisavam que, pelo meio da multidão podia estar um namorado, devia estar um namorado. “Olha que – em teoria – arriscas-te a levar uma carga de porrada”.

Faço aqui só um pequeno aparte, para vos dizer que tenho um cão. Um rafeiro impertinente que gosta sistematicamente de fugir de casa, contra os meus mandos. “Leão”, digo-lhe eu ao regressar, “então tu não me ouviste, Leão? Hum? Tu não ouviste o dono, Leão? Olha que se fazes isso mais uma vez – apanhas!”. Ora, eu sei que o sacana do cão, envergonhado e apologético naquele momento, ouve “Leão! Blá, blá, blá, Leão! Blá, blá, blá, Leão! Blá, blá, blá!” – e depois volta a fazer exactamente o mesmo, se tiver a oportunidade.

Assim era eu, nesses gloriosos momentos de impulsividade – vulgo… ‘vibes’. Quando o meu amigo me dizia “Olha que – em teoria – arriscas-te a levar uma carga de porrada”, na minha mente soava “Blá, blá, blá – em teoria – blá, blá, blá.” – e eu depois fazia o que me apetecia, se tivesse a oportunidade.

Mas guardo algumas dessas tampas como medalhas. Lembro-me de uma loira deslumbrante que, numa fila de espera, e percebendo que a minha pergunta, se bem que oportuna, servia só para fazer conversa, me dirigiu o mais encantador, senhoril e adstringente ‘Diga?!’ de que me recordo – sem mais resposta. É extraordinária a capacidade de uma mulher expressar frases tão claras, com uma palavra só.

Ah, as mulheres… Digam o que disserem, sejamos Tântalos ou Casanovas, todos somos algo em função delas. A nossa felicidade passa sempre pela felicidade delas – não devia ser assim tão difícil de perceber."


(Nota: os direitos de autor do texto anterior pertencem à empresa Frestacom)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Tuga-lite Zone

Curioso como este "mundo bizarro" de que fala Krugman, e que eu chamaria a "esquizofrenia de facção", está presente em Portugal, tanto na direita como na esquerda. Ambos os lados vivem de modelos interpretativos da realidade que, no fundo, não coincidem com a realidade objectiva - são simplistas, grosseiros, abusivos.

A direita atribui demasiada culpa à governação, a esquerda atribui demasiada culpa à conjunctura. É uma luta entre castelos de marfim, esta a que os portugueses assistem pela televisão - um espectáculo que se repete todas as noites, numa secreta esperança que enfim haja verdade, haja lucidez.

Nada disso seria grave, claro - não fosse o tal famoso "horror ao vazio" que a Natureza tem.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

"Bisbetico Indomabile", Ou a Forma e o Conteúdo

Eu dizia que ganhar o campeonato no primeiro ano em Itália era o supremo teste - e Mourinho conseguiu-o, com todo o mérito. Reitero: é muito mais difícil fazê-lo em Itália do que em Inglaterra.

No entanto, os meus avisos acerca da cultura italiana não foram meros caprichos - era fácil demais, para alguém que dela tivesse a mínima noção, ver o confronto a acontecer. Parte desse confronto é propositado, da parte de Mourinho, por "mindgame". Mas ele tem vindo também a descobrir - à sua custa - que em Itália o "mindgame" não tem um princípio, meio e fim, como em Inglaterra - sendo que o fim seria o reconhecimento pelo seu sucesso.

Acontece que aquele é um sítio em que não há o mesmo "silêncio" da vitória, um sítio onde não basta o conteúdo - é também precisa a forma (aliás, alguns italianos podem enamorar-se da forma muito além do conteúdo...).

Eis porque, por mais conteúdo, ou valor objectivo, que ele possa ter oferecido (e declaro desde já que não me parece que o Inter jogue um futebol assertivo ou apaixonante - continua, época e meia passadas, uma espécie de eterno prelúdio a outra coisa qualquer) a forma há-de lá estar como uma sombra. Não basta aos italianos que Mourinho seja "bravo" - se não aprender a ser galante e humilde, a irritação com o "uomo di Setubal" nunca vai diminuir. É realmente irracional - quanto mais irritados estiverem com o seu estilo, mais irão passar por cima do que tem conseguido.


Por isso Mourinho reclama com um "pensava que esta era a terra do 'resultado final é que conta'...". Engana-se, efectivamente. Isso é verdade quando também os conquista pela sua postura. Quando não, eles são cruéis ao ponto de - dado o resultado positivo - reclamarem pela pobreza do futebol, ou explorarem questiúnculas com jogadores, fingirem que o Inter é alguma espécie de clube glorioso na Europa, para quem uma derrota é uma ignomínia. È cosi.

Para os italianos, talvez, estaria na altura de Mourinho ter mudado de discurso - teve o tempo necessário para se adaptar ao país. E para encher o olho com grandes espectáculos - teve o tempo necessário para controlar a equipa.

Para Mourinho, talvez, estaria na altura de os italianos terem mudado o seu discurso - de reconhecerem a sua capacidade, os resultados conseguidos, com uma equipa, em notas à americana, B ou B+, mas definitivamente não de categoria A ou A+.

O problema, reparem bem, é que os italianos falam da forma, e Mourinho do conteúdo. Ah... houvesse forma e conteúdo... todos seriam felizes.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Primum Non Nocere

À entrada da rotunda
O homem bateu no meu carro -
E roubou-me segundos, palavras,
Chicoteado
Pela sua desatenção.

A noite era escura,
Molhada, fria -
Dessas noites quem fingem
Não verem quem guia;
Noites escondidas,
Pecados de omissão:
Teias para moscas que vão
Morrer sem saber porquê.

HjmKg HyfRT LjgF... jWq
[!Choque!]
Pancada de confirmação.

[ ]

Silêncio.
Podia ter sido Morte.
Mas não foi.

Acorda:
Foi só isso, não há mais,
Os carros passam selvagens, iguais
Mas estás aquém
Dessa linha -
A teia não colou.

Sai, sai do carro e fala
Com a outra mosca, que escapou.

A ele, que te empurrou
Sem intenção
Faz como quem já te perdoou -
Estamos vivos,
Não há questão.

Que lide ele
Com a própria maldição.
O jogo é este:
"Primum non nocere" -
Atenção:
Quem a regra trair,
Quem se distrair,
Não mais pode pedir
Aos outros, seu coração.

Pedro Oliveira

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Nem A Eles Nem À Morte

Andamos neste mundo
Para esquecer os dilemas,
E ontem
Quase morríamos na estrada.

Do nada,
Fomos ultrapassados,
Marcados
Por ódio, por amor
A poder continuar -
Cada dia de vida
Não confessamos celebrar.

Depois nos queixaremos -
Quando nos pudermos sentar -
De quantos dilemas
Não resolvemos arriscar.
Não morrer
É bastante bom:
Nunca ouvimos duas vezes
O som da Morte.
Mas sabemos:
O silêncio foi mais forte que nós.

Invocaremos tempos secretos,
Em que olhávamos
Em cima os nossos avós
...
O Tempo é atroz...
E a Morte foi esquecida,
Escondida por nós.

E dos nossos pecados?
Descendentes emancipados
De fósseis -
Nada de novo há em pecar.

E se o Mundo
Nada nos deve afinal?
Com medo de um erro fatal,
Nos ancorámos:
Amar, odiar, pecar
Perdoar, recordar, contentar
(Sujar!, limpar!, sujar!)
Olhar
Os olhos deles.

E não escapámos -
Nem a eles nem à Morte.

Pedro Oliveira

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Ao Menos Não Nos Vemos Gregos

Futebol Madoff

E alguém disse de mim que eu "até dava uns toques" a jogar futebol. E foi aí que pensei "Caramba. Eu podia ter sido um Madoff. Eu podia ter sido um Madoff."

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Realpolitik

Deixai os tolos falar. Oh, deixai os tolos gritar, cegos por suas paixões.

Realpolitik portista, meus amigos - e é por isto que eu gosto tanto da cultura daquele clube.

Qualquer dia sou portista, e vocês nem deram por nada.

Síndrome Metabólico

Interessante contextualização, evolutiva, do síndrome metabólico (que afectará uma parte considerável da população portuguesa), relevada por José Pedro Lopes Nunes, no Blasfémias. Aqui.