Eu tento seguir erimita, mas as pessoas teimam em contar-me os problemas e, alas, continuo a evitar dar uma marretada na televisão.
Há vários anos que eu digo, escrevo (e eu bem sei do número elevado de portugueses que seguem as minhas opiniões - eles hão-de, naturalmente, lembrar-se), que Portugal atravessa um deserto da ofensa à inteligência. Nomeadamente por parte dos seus governantes, elites, e "parceiros sociais". Temos perante nós uma situação encapotada de asfixiamento da juventude, por parte de uma classe etária acomodada, que não compete, não é avaliada, que se mexe na sombra - mas mexe em tudo, e condiciona a ascenção dos mais novos.
Repare-se, por exemplo, que as coorporações têm inclusive aumentado, no nosso país. Como se não bastasse o aumento do Estado e a infecção burocrática europeia. Tudo conflui para uma geração vigente, demasiado vigente, que tudo controla, enquanto uma outra assiste em baixo, se sujeita, evita casar e vive em casa dos pais até aos 30, esboroa todos os sonhos e ambições que não envolvam dinheiro fácil, carros de luxo, sexo, futebol. Quem estuda "à antiga" é um excêntrico, quem lê é um excêntrico, quem vive sem nada do Estado é um excêntrico.
Muito prazer.
Parte de mim muito gostaria de prosseguir uma vida ociosa, com dinheiro fácil garantido, sexo ainda mais fácil, champanhe, viagens, carros velozes. A questão é que não vejo isso a acontecer. A sociedade teima em não me entronizar, por uma qualquer razão. Por isso, optei por fazer o meu percurso, trabalhar enquanto coetâneos me gozam por o fazer, tentar a minha sorte perfeitamente sozinho, no meu meio profissional. Um pouco à maluca, mas eu até sinto que ganhei a minha aposta.
Voltanto atrás, porém, é claríssimo existirem hoje duas gerações de portugueses: aqueles, mais velhos no jogo, que dominam Estado, corporações, administrações de empresas, sindicatos, e reformados (velhos e semi-velhos...), e o resto, em que se mistura uma classe média com filhos encalhados, assustados empregados nas estruturas de tudo isto, tantas vezes "escravizados", qualquer que seja o seu mérito, e, claro, os típicos "furas-vidas", ociosos subsidiodependentes, que têm o instinto de perceber que estão a ser encornados - por isso, num maguito, se recusam a mexer palha.
Voltando à questão da ofensa à inteligência, vejam como as medidas de contenção que o Governo propõe, mesmo que fossem virtuosas (infelizmente provar-se-ão, temo bem, terem efeitos contraproducentes e contracturantes na Economia), são obscenamente discrecionárias. Ninguém mexe na estrutura mastodôntica do Estado - aí não - ninguém privatiza o sorvedouro que é a RTP, ninguém-ninguém corta - percebem agora? - na geração vigente.
Cortam nos portugueses que têm a mania de serem melhores que os outros - os independentes -, e na geração subjugada: aqueles que não foram espertos o suficiente para se meterem no Estado, para se meterem nos sindicatos, para se meterem nas câmaras, para se meterem nas Ordens, para se meterem. Até mesmo aqueles que aí se meteram - mas só são mandados. Mesmo aos "fura-vidas" do maguito cortam o subsídio de desemprego, algum dia o rendimento mínimo.
Eis o país, em 2010 - de um lado os ofensores da inteligência, do outro os ofendidos. Os primeiros ocupam, e dão a cenoura (subsídios, empregos, aconchegos vários) e o chicote (supressão da liberdade, como eu lhe chamo, por censura-vodu - o de cima não profere as palavras claras, só dá sinais que o de baixo usa para se auto-limitar). Os ofensores fingem que não estão a ofender (o que faz parte da ofensa, claro), os ofendidos fingem não estarem a ser ofendidos (temos é que viver um dia de cada vez - podia ser pior).
Eu não quero muito falar sobre tudo isto, porque o acho perfeitamente obsceno. Tão obsceno que me cansa, por deprimente que nem sequer o achemos todos obsceno. E em vez disso tento fantasiar, escapar, e penso que a minha televisão, os relatos que me contam, deveriam estar esvaziados de obsceno. Porque não substituídos por pornografia?
Em vez de Mário Crespo, uma pornstar loira, esbelta, linda de morrer. Em vez de RTP as produções da Vivid Entertainment. Em vez da Fátima Campos Ferreira, uma checa deslumbrante. Em vez da nova apresentadora da Sic Notícias... hum... espera - essa pode ficar.

Ah... fosse o (meu) mundo mais pornográfico e menos obsceno... Que menos dignidade não teria - de tanto estou certo.
Há vários anos que eu digo, escrevo (e eu bem sei do número elevado de portugueses que seguem as minhas opiniões - eles hão-de, naturalmente, lembrar-se), que Portugal atravessa um deserto da ofensa à inteligência. Nomeadamente por parte dos seus governantes, elites, e "parceiros sociais". Temos perante nós uma situação encapotada de asfixiamento da juventude, por parte de uma classe etária acomodada, que não compete, não é avaliada, que se mexe na sombra - mas mexe em tudo, e condiciona a ascenção dos mais novos.
Repare-se, por exemplo, que as coorporações têm inclusive aumentado, no nosso país. Como se não bastasse o aumento do Estado e a infecção burocrática europeia. Tudo conflui para uma geração vigente, demasiado vigente, que tudo controla, enquanto uma outra assiste em baixo, se sujeita, evita casar e vive em casa dos pais até aos 30, esboroa todos os sonhos e ambições que não envolvam dinheiro fácil, carros de luxo, sexo, futebol. Quem estuda "à antiga" é um excêntrico, quem lê é um excêntrico, quem vive sem nada do Estado é um excêntrico.
Muito prazer.
Parte de mim muito gostaria de prosseguir uma vida ociosa, com dinheiro fácil garantido, sexo ainda mais fácil, champanhe, viagens, carros velozes. A questão é que não vejo isso a acontecer. A sociedade teima em não me entronizar, por uma qualquer razão. Por isso, optei por fazer o meu percurso, trabalhar enquanto coetâneos me gozam por o fazer, tentar a minha sorte perfeitamente sozinho, no meu meio profissional. Um pouco à maluca, mas eu até sinto que ganhei a minha aposta.
Voltanto atrás, porém, é claríssimo existirem hoje duas gerações de portugueses: aqueles, mais velhos no jogo, que dominam Estado, corporações, administrações de empresas, sindicatos, e reformados (velhos e semi-velhos...), e o resto, em que se mistura uma classe média com filhos encalhados, assustados empregados nas estruturas de tudo isto, tantas vezes "escravizados", qualquer que seja o seu mérito, e, claro, os típicos "furas-vidas", ociosos subsidiodependentes, que têm o instinto de perceber que estão a ser encornados - por isso, num maguito, se recusam a mexer palha.
Voltando à questão da ofensa à inteligência, vejam como as medidas de contenção que o Governo propõe, mesmo que fossem virtuosas (infelizmente provar-se-ão, temo bem, terem efeitos contraproducentes e contracturantes na Economia), são obscenamente discrecionárias. Ninguém mexe na estrutura mastodôntica do Estado - aí não - ninguém privatiza o sorvedouro que é a RTP, ninguém-ninguém corta - percebem agora? - na geração vigente.
Cortam nos portugueses que têm a mania de serem melhores que os outros - os independentes -, e na geração subjugada: aqueles que não foram espertos o suficiente para se meterem no Estado, para se meterem nos sindicatos, para se meterem nas câmaras, para se meterem nas Ordens, para se meterem. Até mesmo aqueles que aí se meteram - mas só são mandados. Mesmo aos "fura-vidas" do maguito cortam o subsídio de desemprego, algum dia o rendimento mínimo.
Eis o país, em 2010 - de um lado os ofensores da inteligência, do outro os ofendidos. Os primeiros ocupam, e dão a cenoura (subsídios, empregos, aconchegos vários) e o chicote (supressão da liberdade, como eu lhe chamo, por censura-vodu - o de cima não profere as palavras claras, só dá sinais que o de baixo usa para se auto-limitar). Os ofensores fingem que não estão a ofender (o que faz parte da ofensa, claro), os ofendidos fingem não estarem a ser ofendidos (temos é que viver um dia de cada vez - podia ser pior).
Eu não quero muito falar sobre tudo isto, porque o acho perfeitamente obsceno. Tão obsceno que me cansa, por deprimente que nem sequer o achemos todos obsceno. E em vez disso tento fantasiar, escapar, e penso que a minha televisão, os relatos que me contam, deveriam estar esvaziados de obsceno. Porque não substituídos por pornografia?
Em vez de Mário Crespo, uma pornstar loira, esbelta, linda de morrer. Em vez de RTP as produções da Vivid Entertainment. Em vez da Fátima Campos Ferreira, uma checa deslumbrante. Em vez da nova apresentadora da Sic Notícias... hum... espera - essa pode ficar.

Em vez de os clientes me chatearem no trabalho - uma francesa a despir-se suavemente até ficar de lingerie. Em vez de ir a andar para casa, uma limusine onde uma americana me espera só com um copo de champanhe e uma estola negra. Em vez de um quarto vazio de onde escrevo este post, um quarto onde duas amigas de olhos azuis esperam uma massagem na cama.
Ah... fosse o (meu) mundo mais pornográfico e menos obsceno... Que menos dignidade não teria - de tanto estou certo.
(...)
Subitamente - que visão de artista! -
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista;
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!
(...)
Cesário Verde, in "Num Bairro Moderno"
Subitamente - que visão de artista! -
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista;
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!
(...)
Cesário Verde, in "Num Bairro Moderno"