“(…) Os fundadores da Bandeira, moços ambiciosos que rondavam em torno das repartições do Estado, tinham encontrado um patrono num homem político, alta figura de relevo na história Constitucional, o conselheiro Gama Torres. A protecção que dispensava porém à Bandeira este homem notável, era, como dizia finamente o Conde – platónica, toda platónica! Não lhe dava dinheiro, porque, chefe de família, entendia, e muito bem, que a política não deve sorver fortunas, mas, pelo contrário, produzi-las. Não dava tão pouco ideias, porque, apesar da sua alta ilustração, que o torna um dos nossos grandes contemporâneos, a sua prudência, a sua reserva eram tais, que raras vezes se lhe tinha ouvido uma opinião nítida.
Sabia-se que aquela fronte um pouco calva, de entradas largas, estava recheada de ideias; somente conservava-as como um tesouro escondido. Era, por assim dizer, um avaro intelectual. As suas ideias eram para si; no silêncio do seu gabinete, agitava-as como o velho Grandet agitava o seu ouro, regalando-se do seu brilho e da sua sonoridade. Mas se alguém entrava de repente, aferrolhava tudo à pressa no cofre do cérebro, e a sua larga testa, de entradas altas, não oferecia mais que uma fachada impenetrável e monumental, que impressionava a todos e não aproveitava a ninguém. (…)”
(in O Conde d’Abranhos, Eça de Queirós)


Não é fácil aceder a boa informação em Portugal. Não me refiro à falta de bibliotecas, sequer à falta de acesso a documentos importantes, como legislação, que está inclusivamente disponível via Internet. Não me refiro à informação “em bruto”, antes noto a falta de traduções de manuais de texto de referência, e de manuais de texto de autoria nacional – sobretudo daqueles que fazem a transição entre o conhecimento teórico e a prática laboral. Parece-me que em Portugal não há edição de livros científicos de cunho nacional numa cadência sequer próxima da de outros países com o mesmo nível de desenvolvimento.
"Prometeu traz o fogo à Humanidade", Heinrich Füger.
No caso concreto de Farmácia, reparei que não existem livros, por exemplo, acerca dos sistemas informáticos usados nas farmácias de Oficina. Ou um manual – simples – que abordasse as questões do receituário, nomeadamente os organismos existentes, a sua razão de ser, a legislação, por exemplo, aplicável a uma receita para que esteja válida.
“Seria demasiado fácil”, poderá responder alguém. Mas porque não? Porque é que as questões “prácticas” da Farmácia Comunitária, ou mesmo da Farmácia Hospitalar só podem ser aprendidas in loco, e não podem estar (bem) tratadas em edições próprias? Separadamente – e este é o meu ponto – do corpo de conhecimento teórico, científico-clínico, que se abordou na universidade.
Em suma, parece-me que a Práctica Farmacêutica, por comparação com os manuais ingleses e franceses a que tive acesso, está mal explorada em Portugal. Um exemplo: na questão de Indicação Farmacêutica (fundamental aplicação no “real” dos conhecimentos teóricos), apercebi-me de que fora editado pela ANF , há algum tempo, um manual de qualidade . Perguntando directamente à ANF pelo mesmo, soube que está actualmente esgotado. Encontrei-o somente disponível para consulta, na biblioteca da FFUL.
Parte dessa falta será explicada, logicamente, pela pequena dimensão do mercado nacional. E, hoje em dia, a cópia fácil, em reprografia ou via Internet, também desencoraja quem esteja disposto a investir o seu esforço em tal empresa. Finalmente, e talvez mais importante, há também o facto de editoras brasileiras terem ocupado esse vazio.
Outro factor, porém - mais arcaico - é alguma de predisposição, como povo, para “o segredo” ser, com efeito, a “a alma do negócio”. Num país pequeno, em que a imitação é comum, e a escassez de lugares está sempre latente, o know-how é (ainda mais) um bem. Em qualquer ramo – e o ramo farmacêutico é exactamente como os outros, nesse aspecto. Tenho ouvido relatos de outras pessoas que, começando um cargo, se vêem obrigadas a “garimpar” pelo conhecimento básico, necessário ao cumprimento da sua função. Quase diria que Portugal sempre foi uma “sociedade do conhecimento”, e por isso gosto de recorrer - como alívio cómico - à caricatura do conselheiro Gama Torres, que fez Eça de Queirós.
Refiro-me a este aspecto não por capricho, porque me teria sido conveniente dispor de tais livros na preparação deste trabalho – já… bastarão os ridículos a que não me consigo escusar. Antes, aproveito-o para realçar que as universidades de hoje não são mais o repositório do conhecimento que foram outrora. A edição de livros científicos, de carácter básico, ou adaptados à realidade do trabalho, em Portugal - por autores portugueses - é um passo para a melhoria dos procedimentos, e da qualidade dos profissionais. A competição hoje em dia é global, e feita com base em padrões internacionais, a que não se pode escapar. Quanto mais, e mais cedo, as novas gerações puderem começar a partir de informação “tratada”, mais longe irão - mais criativos serão. É essa criatividade que fará realmente a diferença.
Fica por saber se as gerações vigentes terão a generosidade necessária de “poupar” esse tempo de aprendizagem às vindouras. Se não, estaremos provavelmente condenados a ter um português que, saído da universidade, conseguiu, a esforço, tornar-se um perito no emaranhado de requisitos legais necessários a obter uma comparticipação estatal de uma receita, contra um chinês ou um americano que, por as suas sociedades não reconhecerem “valor” a esse tipo de conhecimento, e terem procedimentos mais simples, se concentram antes em evoluir a nível científico-técnico.
Na escolha dos temas para esta tese – determinado previamente o tema A – escolhi, para Farmácia Comunitária, a Indicação na Infecção Urinária e a Contracepção Hormonal de Emergência (CHE), e, para Farmácia Hospitalar, a Terapia do Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH).
A opção pelos dois primeiros temas é muito simples: aquando do meu estágio pareceram-me ser duas… “situações-limite”, com que eu teria, de futuro, que lidar ao balcão. Por “situação-limite” refiro-me a uma situação que escapa ao rotineiro, que “emerge” de entre os actos de um farmacêutico ao balcão. Uma farmácia comunitária não é um serviço de Urgências, mas há situações de maior tensão – e que exigem uma postura distinta do farmacêutico.
No caso da infecção urinária, há uma questão que vai dividir o farmacêutico. Frequentemente, a mulher (uma vez que são típicas das mulheres) descreve uma recidiva, e pede um tratamento, sem receita médica, que já lhe foi prescrito anteriormente – normalmente antibiótico. Ao farmacêutico está vedada a dispensa de antibióticos sem receita médica, por um lado. Por outro lado, a situação é perfeitamente identificável pela doente (de tal forma que médicos há que prescrevem receitas renováveis de antibióticos para algumas doentes usarem, quando ocorrerem recidivas), e a mesma responde mal à necessidade de ir “perder tempo” para as Urgências de um hospital, ou para um Serviço de Atendimento Permanente (SAP), com o intuito de obter a necessária receita – ainda para mais afligida pelos sintomas desta condição. Este caso configura, a meu ver, uma “zona cinzenta”, que confunde a justificação racional para a interdição de dispensa de antibiótico, e, inclusivamente, será exposta a posição de um autor que defende a liberalização da dispensa do antibiótico trimetoprim.
Já no caso da Contracepção Hormonal de Emergência, o carácter especial, ou de “situação-limite”, advém da sensibilidade com que é necessário discutir o tema com o/a requerente da mesma. Embora hajam pessoas que a banalizem – algo que deve ser contrariado – poderá ainda existir algum constrangimento no seu recurso, e haverá a necessidade de aferir correctamente as condições em que permite evitar a gravidez, desfecho de grande impacte psicológico.
O critério que me levou à escolha da Terapia do VIH como tema para a monografia de Farmácia Hospitalar foi diferente – está relacionado com a falta de preparação que senti, aquando do estágio no Hospital Pulido Valente, que dispensa medicação aos doentes infectados pelo vírus. Foi uma lacuna que identifiquei claramente, e aproveitei este trabalho para a tentar dirimir
"Mão com esfera reflectora", M. C. Escher.

