quinta-feira, 24 de junho de 2010

Dissertação

A seguir publico o Preâmbulo da minha Dissertação Final de curso.


“(…) Os fundadores da Bandeira, moços ambiciosos que rondavam em torno das repartições do Estado, tinham encontrado um patrono num homem político, alta figura de relevo na história Constitucional, o conselheiro Gama Torres. A protecção que dispensava porém à Bandeira este homem notável, era, como dizia finamente o Conde – platónica, toda platónica! Não lhe dava dinheiro, porque, chefe de família, entendia, e muito bem, que a política não deve sorver fortunas, mas, pelo contrário, produzi-las. Não dava tão pouco ideias, porque, apesar da sua alta ilustração, que o torna um dos nossos grandes contemporâneos, a sua prudência, a sua reserva eram tais, que raras vezes se lhe tinha ouvido uma opinião nítida.

Sabia-se que aquela fronte um pouco calva, de entradas largas, estava recheada de ideias; somente conservava-as como um tesouro escondido. Era, por assim dizer, um avaro intelectual. As suas ideias eram para si; no silêncio do seu gabinete, agitava-as como o velho Grandet agitava o seu ouro, regalando-se do seu brilho e da sua sonoridade. Mas se alguém entrava de repente, aferrolhava tudo à pressa no cofre do cérebro, e a sua larga testa, de entradas altas, não oferecia mais que uma fachada impenetrável e monumental, que impressionava a todos e não aproveitava a ninguém. (…)”

(in O Conde d’Abranhos, Eça de Queirós)

Não é fácil aceder a boa informação em Portugal. Não me refiro à falta de bibliotecas, sequer à falta de acesso a documentos importantes, como legislação, que está inclusivamente disponível via Internet. Não me refiro à informação “em bruto”, antes noto a falta de traduções de manuais de texto de referência, e de manuais de texto de autoria nacional – sobretudo daqueles que fazem a transição entre o conhecimento teórico e a prática laboral. Parece-me que em Portugal não há edição de livros científicos de cunho nacional numa cadência sequer próxima da de outros países com o mesmo nível de desenvolvimento.

"Prometeu traz o fogo à Humanidade", Heinrich Füger.

No caso concreto de Farmácia, reparei que não existem livros, por exemplo, acerca dos sistemas informáticos usados nas farmácias de Oficina. Ou um manual – simples – que abordasse as questões do receituário, nomeadamente os organismos existentes, a sua razão de ser, a legislação, por exemplo, aplicável a uma receita para que esteja válida.

“Seria demasiado fácil”, poderá responder alguém. Mas porque não? Porque é que as questões “prácticas” da Farmácia Comunitária, ou mesmo da Farmácia Hospitalar só podem ser aprendidas in loco, e não podem estar (bem) tratadas em edições próprias? Separadamente – e este é o meu ponto – do corpo de conhecimento teórico, científico-clínico, que se abordou na universidade.

Em suma, parece-me que a Práctica Farmacêutica, por comparação com os manuais ingleses e franceses a que tive acesso, está mal explorada em Portugal. Um exemplo: na questão de Indicação Farmacêutica (fundamental aplicação no “real” dos conhecimentos teóricos), apercebi-me de que fora editado pela ANF , há algum tempo, um manual de qualidade . Perguntando directamente à ANF pelo mesmo, soube que está actualmente esgotado. Encontrei-o somente disponível para consulta, na biblioteca da FFUL.

Parte dessa falta será explicada, logicamente, pela pequena dimensão do mercado nacional. E, hoje em dia, a cópia fácil, em reprografia ou via Internet, também desencoraja quem esteja disposto a investir o seu esforço em tal empresa. Finalmente, e talvez mais importante, há também o facto de editoras brasileiras terem ocupado esse vazio.

Outro factor, porém - mais arcaico - é alguma de predisposição, como povo, para “o segredo” ser, com efeito, a “a alma do negócio”. Num país pequeno, em que a imitação é comum, e a escassez de lugares está sempre latente, o know-how é (ainda mais) um bem. Em qualquer ramo – e o ramo farmacêutico é exactamente como os outros, nesse aspecto. Tenho ouvido relatos de outras pessoas que, começando um cargo, se vêem obrigadas a “garimpar” pelo conhecimento básico, necessário ao cumprimento da sua função. Quase diria que Portugal sempre foi uma “sociedade do conhecimento”, e por isso gosto de recorrer - como alívio cómico - à caricatura do conselheiro Gama Torres, que fez Eça de Queirós.

Refiro-me a este aspecto não por capricho, porque me teria sido conveniente dispor de tais livros na preparação deste trabalho – já… bastarão os ridículos a que não me consigo escusar. Antes, aproveito-o para realçar que as universidades de hoje não são mais o repositório do conhecimento que foram outrora. A edição de livros científicos, de carácter básico, ou adaptados à realidade do trabalho, em Portugal - por autores portugueses - é um passo para a melhoria dos procedimentos, e da qualidade dos profissionais. A competição hoje em dia é global, e feita com base em padrões internacionais, a que não se pode escapar. Quanto mais, e mais cedo, as novas gerações puderem começar a partir de informação “tratada”, mais longe irão - mais criativos serão. É essa criatividade que fará realmente a diferença.

Fica por saber se as gerações vigentes terão a generosidade necessária de “poupar” esse tempo de aprendizagem às vindouras. Se não, estaremos provavelmente condenados a ter um português que, saído da universidade, conseguiu, a esforço, tornar-se um perito no emaranhado de requisitos legais necessários a obter uma comparticipação estatal de uma receita, contra um chinês ou um americano que, por as suas sociedades não reconhecerem “valor” a esse tipo de conhecimento, e terem procedimentos mais simples, se concentram antes em evoluir a nível científico-técnico.

Na escolha dos temas para esta tese – determinado previamente o tema A – escolhi, para Farmácia Comunitária, a Indicação na Infecção Urinária e a Contracepção Hormonal de Emergência (CHE), e, para Farmácia Hospitalar, a Terapia do Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH).

A opção pelos dois primeiros temas é muito simples: aquando do meu estágio pareceram-me ser duas… “situações-limite”, com que eu teria, de futuro, que lidar ao balcão. Por “situação-limite” refiro-me a uma situação que escapa ao rotineiro, que “emerge” de entre os actos de um farmacêutico ao balcão. Uma farmácia comunitária não é um serviço de Urgências, mas há situações de maior tensão – e que exigem uma postura distinta do farmacêutico.

No caso da infecção urinária, há uma questão que vai dividir o farmacêutico. Frequentemente, a mulher (uma vez que são típicas das mulheres) descreve uma recidiva, e pede um tratamento, sem receita médica, que já lhe foi prescrito anteriormente – normalmente antibiótico. Ao farmacêutico está vedada a dispensa de antibióticos sem receita médica, por um lado. Por outro lado, a situação é perfeitamente identificável pela doente (de tal forma que médicos há que prescrevem receitas renováveis de antibióticos para algumas doentes usarem, quando ocorrerem recidivas), e a mesma responde mal à necessidade de ir “perder tempo” para as Urgências de um hospital, ou para um Serviço de Atendimento Permanente (SAP), com o intuito de obter a necessária receita – ainda para mais afligida pelos sintomas desta condição. Este caso configura, a meu ver, uma “zona cinzenta”, que confunde a justificação racional para a interdição de dispensa de antibiótico, e, inclusivamente, será exposta a posição de um autor que defende a liberalização da dispensa do antibiótico trimetoprim.

Já no caso da Contracepção Hormonal de Emergência, o carácter especial, ou de “situação-limite”, advém da sensibilidade com que é necessário discutir o tema com o/a requerente da mesma. Embora hajam pessoas que a banalizem – algo que deve ser contrariado – poderá ainda existir algum constrangimento no seu recurso, e haverá a necessidade de aferir correctamente as condições em que permite evitar a gravidez, desfecho de grande impacte psicológico.

O critério que me levou à escolha da Terapia do VIH como tema para a monografia de Farmácia Hospitalar foi diferente – está relacionado com a falta de preparação que senti, aquando do estágio no Hospital Pulido Valente, que dispensa medicação aos doentes infectados pelo vírus. Foi uma lacuna que identifiquei claramente, e aproveitei este trabalho para a tentar dirimir

"Mão com esfera reflectora", M. C. Escher.