sexta-feira, 12 de março de 2010

A Minha Farmácia I: A Volta do Monstro

A minha farmácia, a farmácia onde trabalho de momento, tem várias semelhanças com o bar de "Cheers". Ou então, sucede apenas que eu me entretenho a rever a série (que ainda não me entusiasma demasiado, tal como há anos atrás), em reposição na RTP Memória.

"Where everybody knows your name/And they're always glad you came" - assim vai a canção. É. E assim gostaria eu de receber os clientes. Infelizmente, porém, se alguma vez ainda consegui fazer de "Sam"...



...demasiadas vezes acabo por ser apenas um "coach", atrapalhado, esquecido - e confuso.



Curiosamente, não é descabido puxar para as minhas duas colegas a comparação com a "Carla" e a "Diane". A semelhança é tão boa que recuso-me a mais desenvolver o tema.



Desde que começei, foi-me possível - como é inevitável a um farmacêutico, que lida com todo os aspectos que as pessoas evitam levar para a sua vida "mainstream" - fazer aquilo que o Pacheco Pereira chamou um dia da "volta do monstro", e que eu interpretei sempre como a perda de um certo idealismo de juventude - da "virgindade antropológica", chamo-lhe assim. Basicamente, constatar o lado negro da natureza humana.

Ocorre que, por prazer desde que me conheço, consigo ler em várias línguas, tenho uma cultura geral que me permite ter uma mínima conversa com vários tipos de pessoas, e completei um curso superior. Mas amiúde atendo pessoas que me não me consideram - de todo - um "doutor". É certo que eu nunca puxo esses galões, como me nauseia ver fazer. Nauseia sobretudo porque é mais próprio dos "pseudo-doutores".

Mas estranho tratarem-me por "tu", ou, pior, surriparem os complementos de uma frase para a tornar possessiva, nunca mais gentil. "Traz-me isto", ou "Quero aquilo", etc, etc. O "se faz favor" e "obrigado", castigada a sua falta mínima em mim, parecem ter feito, na mente obtusa destas pessoas (felizmente uma minoria), uma espécie de "murder-suicide pact" - já não podiam ali viver mais. O "se faz favor" pediu ao "obrigado" para o balear, e este último viu-se... obrigado a suicidar-se também - por gratidão.

Mas o pior está por descrever: o achincalhamento ad hominem, ou seja, o espectáculo de humilhação pessoal - dirigido a mim - por (até agora) 2 pessoas distintas, que, sem piedade, se desfazem das suas frustrações ofendendo um rapazito novo ao balcão - porque sim. Felizmente, constato - e quem me conhece sabe que prezo a honestidade intelectual - sem mácula minha, sem razão objectiva de queixa. Já errei nesta profissão, confesso - mas não errei em nenhum destes 2... X-Files.

Um deles, curiosamente, era um homem parecidíssimo também com o Cliff Clavin do "Cheers" (na foto à esquerda do Norm), e do dia antes, em que me aborreceu com uma descrição inusitada da sua vida, percebo que as semelhanças não se ficam por aí. Recordo os seus olhos estranhamente vermelhos, a falta de lucidez básica no discurso, e a negação de todas as minhas "exit strategies" da conversa: cada vez que me afastava para ir arrumar algo, ele... continuava a falar. Nunca tinha visto algo assim. "It's a little known fact" - parecia ele repetir a cada ronda de trivialidade.



Na noite seguinte a este confessionário, veio à farmácia chamar-me practicamente idiota e mentecapto matemático, urlando perante todos os clientes e colegas, vermelhíssimo novamente, para exigir 10 euros de troco do dia anterior. Emprestei os documentos em causa à minha superior, para que ela fizesse as necessárias contas - que revelaram um erro. Tive que lhe pedir desculpa, e voltar para casa com os nervos em franja. Mais tarde a minha superior ligou-me: o "Cliff" tinha ido à farmácia confessar que se tinha enganado, e ela própria tinha feito as contas mal, com os documentos que lhe dei. Inocente, eu? Só depois de ser gratuitamente rolo-comprimido - sem direito a desculpa, naturalmente.

Tudo escrito, não é que eu não soubesse do "monstro", mas ainda me aborrece. Torna este país ainda menos especial, diferente até do que eu pensava dele em criança. Igualzinho aos outros, sem tirar nem pôr. E é pena. Eu tenho pena.

Mas bom, esta "volta do monstro" constitui a primeira lição que a minha farmácia, enquanto microcosmos, me tem dado sobre o meu país. A segunda segue dentro de momentos. Não a percam.