terça-feira, 4 de maio de 2010

Silêncios

Hoje ao andar de metro lembrei-me do título de um livro de George Steiner, "Silêncio dos Livros", apenas do título, e do que evoca em mim, já que ainda não o li. Isto porque ali estava uma mole de pessoas, lato-ensardinhadas, num silêncio sempre postiço, desconfortável. Interdito o contacto visual, a fala, o barulho. Livra-te disso.

Prefiro sempre o silêncio dos livros, à minha espera, enquadrados em tons de madeira. O silêncio dos livros esconde vidas, aventuras, sínteses, descobertas, tempos. Este silêncio humano esconde, parece-me, uma espécie de agressividade contida a custo, desabafos cuja heróica interiorização carece de loas, esconde pequenos orgulhos, pequenas conspirações, dúvidas, alerta para sinais dos culpados, esconde males menores, e também alguns males maiores. E cansaço, claro que esconde cansaço ao fim do dia de trabalho.

Recordo o amor aos livros pela diferença enorme em relação ao silêncio humano, porque este último não é um silêncio genuíno - é um silêncio fabricado. Mesmo que esse silêncio dos livros só faça sentido, tenha nascido, por antítese ao "barulho" humano, à verdade do ser humano - a sua revolta, a sua alegria, a sua vitalidade, não assim suprimida.

Mas estes são tempos de silêncio humano, e isso preocupa aqueles que conhecem o silêncio dos livros.