domingo, 23 de maio de 2010

Da Vitória, Do Futebol, Do Carácter-Molusco

Todo o mérito a José Mourinho, e os devidos parabéns pela conquista. Não há a menor dúvida que o Inter foi a equipa que mereceu esta Champions. E eu gosto de ter um português famoso internacionalmente pela sua inteligência.

Mas continuarei com a minha embirração com Mourinho, ainda maior se ele treinar o Real Madrid. Que, aliás, será para ele um salto no desconhecido. É um clube com perfil genético diferente de Porto, Chelsea ou Inter. Recordo que Mourinho provou que podia ganhar tudo em Itália, mas que os meus avisos - feitos há 2 anos - sobre o quanto a sua maneira de ser seria contraproducente em Itália, se revelaram acertados.

E pronto: reconhecendo o talento na gestão, mas gostando de um outro tipo de futebol, de um outro tipo de postura, tudo me sabe ainda agridoce.

É que... o futebol não é cirurgia a peito aberto, não é uma guerra para nos salvar, não é um plano essencial de fomento económico; é uma arte cénica, e uma metáfora; trazer para esse subproduto marginal o "mainstream" de trabalho, de esforço, de moralismo, trazer a vertigem de ganhar não faz qualquer sentido.

Só acontece, em minha opinião, porque o próprio "mainstream" anda esvaziado desses valores, anda decadente. Eu só posso aceitar esse discurso de vitória de uma equipa, por exemplo, como o Barça, que não só ganha, também joga bom futebol. Que usa a vitória para preservar a arte, e usa também a arte para produzir uma vitória. Eu não vejo essa osmose entre arte e resultado nas equipas de Mourinho - lamento dizê-lo.

Talvez seja porque o Barça é "mais que um clube", é uma região, e um povo. É um ponto de chegada. E com Mourinho, há sempre outro ponto de chegada mais além, mais distante. Amanhã, no Real Madrid, será a selecção, suponho.

Pergunto-me se a sua abordagem à gestão de uma equipa, pelo mediatismo que induz, pela intensidade com que o faz, não permite a sustentabilidade. Quer isto dizer: será que Mourinho precisa de ir mudando de clube, para continuar a carburar àquela intensidade?

Tal seria, no fundo, inteligente, no sentido em que são parcos os casos de sustentabilidade a treinar clubes. Com sucesso, claro está. Já que se está sempre a prazo, mais vale pôr a carne toda no assador, criar todos os inimigos possíveis para destabilizar naquela(s) épocas, que depois haverá outro destino onde recomeçar. Foi assim, parece-me, em Portugal em Itália - concedo que menos em Inglaterra.... A vós de julgar.

Há um pormenor em que eu tenho imensa empatia com Mourinho - a luta contra a hipocrisia e a "prostituição intelectual". Só discordo dele se disser que é exclusivamente italiano (porquanto Itália seja nisso, tradicionalmente, uma especialista). Há bastante disso cá, e, realmente, suga-nos a melhor vida, é verdade.

Enche-nos de mágoa, aqueles que querem seguir para a frente, não saber em quem confiar, não poder contar com a nobreza da fidelidade, do espírito de equipa. Enche-nos de mágoa ter que batalhar no meio de injustiça, da falta de um "level playing field", por entre o primado de pessoas "spineless", sem coluna vertebral. As lágrimas de Mourinho - eu percebo-as bem.

Mas esse carácter-molusco está muito cá também, Zé. Sabes como é - mais facilmente somos Padre António Vieiras que dedicados párocos da nossa vila...

Bom. Uff...chega! Mas eis a prova do sucesso de Mourinho - estarmos tantos a falar dele. No entanto, sim, continuarei a pequena embirração - é mais forte que eu.


[Update]

Concordo perfeitamente com este comentário de Moratti - o timing de Mourinho podia ter beneficiado de mais alguma sensibilidade. E ficar-lhe-á sempre mal não ter ido comemorar o título a Milão. Afinal, como faz questão de dizer, a culpa não é dos adeptos do Inter...