segunda-feira, 26 de julho de 2010

Mulheres, Momentos

Contas feitas, divido a minha relação - contemplativa - com as mulheres em dois momentos muito distintos, muito claros também.

Há os momentos em que me encantam com o seu espectáculo, e então eu contemplo como um menino numa loja de doces. Nem lhes interessa se eu contemplo, são estupendos seres e sabem-no bem. Querem o sumo desta vida.

E há os momentos em que me consideram um homem inferior - notoriamente inofensivo, que nada mais é capaz senão de contemplar. E, claro está, uma mulher precisa, em vários momentos e de forma diferente, de um homem (mesmo um homem bom na vida em sociedade) que possa ser mau. Ciao, Darwin!.

Analisemos, pois, meus amigos, esses diferentes momentos em que me divido no jogo de magnetismo com elas. Baptizei os primeiros momentos como "Momentos-Manara", os segundos como "Momentos-Carolina". A continuación.

domingo, 25 de julho de 2010

My Favourite Game III

No último ano tenho vindo a estudar todos os mecanismos para conseguir estar sozinho, para me desenrascar totalmente sozinho. Como um apátrida, ou um estrangeiro.

Mas eu sei - mesmo se a companhia derradeira for apenas o meu cão - que "isolation... is not good for me".

Fuuu... Arranjar coragem - e sair, conhecer gente. O cão espera por mim.

My Favourite Game II

Insisto que tenho que parar com o queixume, que sou demasiado queixume. Mesmo se me reconhecerem razões objectivas para o meu trademark bitching about - não me levará a lado nenhum.

Vou relapsar para o queixume quando estiver pior, na minha vida. Mas espero ser sempre melhor que isso.

Reading List 10



Quando disse a alguém que estava a ler o livro por detrás da série "Dexter", fui recebido com estranheza. "Não gosto. Acho que é macabro" - a série, dizia. E foi então que me recordei de já ter pensado assim também, exactamente assim.

Não mais. Com poucas séries me aconteceu este fenómeno, passar do desprezo - ao deslumbre. Assim que comecei a ver um pouco de "Dexter" o estranhar, o pavor de sangue e entranhas, passou a ser interessante, magnificamente desenhado. Brilhante, entranhou-se-me. For good.

Por isso, quando descobri que havia um livro por detrás da série, campainhas de prazer tocaram no meu cérebro. Tinha que o ter, tinha que o ler.

E então, em retrospectiva, tudo fez sentido. Percebi que gosto de Dexter por ter profundidade, por ter frases e reflexões, por ser um retrato brilhante de um 'outcast'. E, como me dizia outro alguém, mesmo hoje, eu sou um 'outcast' também. O amor estava, por isso, à espera de acontecer.

A profundidade da série vem então de a preceder um excelente livro. Certamente que, sendo bestseller, tal como os livros de Stephen King, tem um fluir que não deixa demasiado espaço para rodriguinhos estilísticos (que existem, porém - bons, curtos, originais). Não para amantes de natureza morta, classicamente pintada - esta é arte contemporânea da melhor.

O enredo está tão bem feito - 'great' (o vigilante heterodoxo, o 'Espírito da Morte' secreto que alberga, a origem dessa sede por sangue, a libertação que o interdito confere às relações humanas) que nos prende. Dexter tem imensa personalidade - é único. Vale a pena escutá-lo pensar.

Para mais, meus caros, o primeiro livro termina de forma diferente dos eventos na série. Inebriantemente diferente. Oh, beautiful toxic stuff.. Os próximos volumes já estão, naturalmente a caminho. As we speak.

275 páginas em Inglês
Kilometragem em Inglês: 1782 páginas.

sábado, 24 de julho de 2010

Nádegas A Declarar

E assim que vi aquele rabo perfeito, daquela loira conhecida (já arrebitada no carácter), as nádegas que se irmanavam perfeitamente, nutridas e desenhadas, de mão dada em direcção à porta, sob a cor - táctil - das calças desportivas de algodão, cinzentas - ocorreu-me: é isto. E isto é, meus amigos, não só um rabo perfeito, não só a imagem do meu dia, mas também o último reduto da nacionalidade. Yap.

O que define uma nação, hoje em dia? Hoje em dia de globalização, em dia do poliglota de necessaire, em dia do dinheiro e o corpo como os únicos sagrados e mínimos denominadores comuns? O que nos define de uma nação, mais que o destino dos impostos, e a proveniência dos subsídios, das reformas (do dinheiro)? Mais do que a equipa de futebol a jogar à bola (apenas uma metáfora). O que resta depois disso?

Talvez um fantástico par de nádegas. Aquele que só poderíamos apreciar tão completamente no nosso país, e em mais nenhum local na Terra (o corpo, sim, mas aquele). É o derradeiro apelo telúrico, a panaceia de todas as desilusões e injustiças. É mágico e magnético. Prende-nos a um sítio.

É por isso que me apeteceu relevar a nova campanha da Sloggi, aproveitando o Tour. Well-rounded indeed. E é por isso que arrisco na fonte de inspiração dos autores - o Bicycle Race/Fat Bottomed Girls dos Queen.

E é por isso que também evoco, como já merecia neste blog, Tinto Brass, o mestre italiano. (Curiosamente, duvido que Freddy Mercury gostasse de ser relacionado com "the likes" do Tinto, mas eu até os acho parecidos num pormenor: da mesma forma que me parece os Queen estragarem momentos melódicos divinais com um resto de canção dissonante, creio que Tinto, muito embora tenha produzido sublimes, incomparáveis, momentos de erotismo, transborda a perversão para estragar o resto dos seus filmes. Que pena. Sejam perfeitos da próxima vez).

Ah - e é por isso, finalmente, que recordo (outra vez...) Bárbara Borges e o poema de Drummond de Andrade (para além do título do post, o mesmo da música de Gabriel O Pensador/Fernanda Abreu) para homenagear o país mais honesto nesta deliciosa questão. Aí não há dúvida de como a bunda é tesouro, é produto - é sentido da nação.

Dito isto que se segue, meus amigos, dito tudo isto, não tenho absolutamente mais nádegas a declarar.

I.






II.





III.




IV.





A Bunda, Que Engraçada

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.

Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora — murmura a bunda — esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gémeas

em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.

Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,

redunda.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)





V.

Yap. Quod erat demonstrandum. Demonstrand-(bumb)um.

Sexy Mother Fado

Consta que o Prince esteve aqui no Meco, de onde escrevo por estes dias, e que fez um dueto com a fadista Ana Moura.

Parece incrível ninguém se ter lembrado deste sketch do Herman Enciclopédia. Bah - I pity the fools!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

My Favourite Game I

Seriamente a pensar se não me devo deixar dele, do meu 'favourite game'. É que me começo a perguntar se fará mais mal que bem.

Será da idade?

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Quem Fala Assim É Gago

Mariano Gago esta semana, a propósito da abertura de um curso de Medicina em Aveiro. No tom certo para defrontar uma ordinarice encapotada que mexeu com a vida de vários jovens portugueses - eu incluído.

“O que é verdade é que, neste momento, faltam médicos em Portugal e isso toda a gente sabe e ninguém compreenderia no país, sobretudo as pessoas que procuram os médicos, que o Estado fizesse aquilo que, infelizmente, fez há 20 anos, que foi proibir a entrada de estudantes nas faculdades de Medicina para reservar a profissão só àqueles que lá estão. Isso é que era completamente inadmissível e devo dizer que não contem comigo para isso”

Depois queixem-se de eu gostar de Espanha. Ao menos deu-me a oportunidade de cursar Medicina, naquele então, ao passo que o meu próprio país me a recusou.

O Triunfo Dos Porcos

Por razões que talvez possa abordar num post mais a jeito, um dos meus livros favoritos é o Animal Farm de George Orwell. Alguns de vocês, eruditos, poder-se-ão lembrar que o título da tradução em Português ficou O Triunfo dos Porcos - por razões que talvez possa abordar num post mais a jeito.

Ora bem, vem isto a propósito do "nick" carinhoso com que o pessoal que lê o Financial Times trata o países mediterrânicos: PIGS. Portugal, Itália, Grécia e Malta. Espera - Malta não existe para além das participações nos Jogos Sem Fronteiras. Eu queria dizer era Espanha.

Pois é. De todos os PIGS assolados pelo pânico da dívida soberana (safa-se melhor a Itália, suspeito que nem queremos bem saber como...), eis aquele que, pelo meio do doom and gloom respondeu à notício-cracia mundial, ganhando, com Justiça, um Mundial de Futebol. Não é exactamente um crescimento do PIB, mas caramba - também ajuda, hombre. Ajuda a que o país seja respeitado, e tido em consideração. Marketing, mis amigos.

(Pequeno aparte: não parece esta vitória uma espécie de "endgame" de Espanha? Um plano urdido para ter uma elite de desporto mundial - é o Alonso, o Nadal, o Gasol, etc, etc? Desde influência política até camadas jovens até inusitada exportação dos talentos... parece tudo um plano perfeito).

Mas espanta-me a reacção de estranheza quando digo que gostei que Espanha ganhasse à Holanda (não me digam que aquela é uma Holanda-Holanda, bastava ver como Van Persie ou Van Bronckhorst pareciam mais estar a cumprir calendário). Como se fosse uma traição a ser português. Give me a break... Eu gostei que Espanha ganhasse porque Espanha jogou mais, primeiro, mas também porque gosto da cultura espanhola.

Como li um dia a Francisco José Viegas, eu não sou um iberista (no sentido que Saramgo lhe deu, de união dos povos), mas eu sou um espanholista. Eu gosto do país. Eu gosto da comida. Eu adoro a língua, adoro ler em Espanhol - até livros científicos. Eu gosto dos melhores sentimentos espanhóis: a franqueza, a espontaneidade (um Casillas sem mais merdas a dar um beijo à Carbonero), a coragem. Gosto, pá. O que é que querem?

Eu tenho saudades de ler o La Vanguardia, apetece-me assinar a Interviú e comprar um livro do Francisco Umbral, ler enfim o Ortega y Gasset como deve ser. Sinto saudades de Barcelona. Eu não sou diferente de ninguém, não venham com tretas - gosto do melhor de Espanha, e dispenso convenientemente o resto, que o há.

Mas isso não cai bem a alguns portugueses. Lembro-me sempre do benfiquista que gritava contra o Quique Flores: 'Eu nem de espanholas gosto, quanto mais de espanhóis!'. Tudo isto é extremamente positivo na eventualidade de Espanha decidir invadir-nos. Como isso, no entanto, só acontece para aí de quinhentos em quinhentos anos, torna-se uma espécie de má-educação visceral que constrange os (poucos) portugueses como eu. Talvez os seus descendentes em 2452 defendam o país, e mostrem 'ter razão'. Não digo que não, chavais, mas até lá, deixem-me disfrutar Espanha no seu melhor, ok?

E, por isso, concluo com a tal canção, que descobri ser de um Manolo Escobar inevitavelmente andaluz. A canção é inócua, não contagia... Podem ouvir. Arranjei maneira de a majestade simples da música ser contraposta por um estilo ridículo dos anos 70. Para vocês.


Pour Toi, Mon Ami

Preguiça, cansaço... Mas eu prefiro ludibriar dizendo airosamente que fui só lavar a cara ao blog e já voltei.

Não - o blog continua mesmo, pequeno Kwame do Senegal. Que eu sei o quanto são populares as minhas chalaças no mercado de Dakar.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Dissertação

A seguir publico o Preâmbulo da minha Dissertação Final de curso.


“(…) Os fundadores da Bandeira, moços ambiciosos que rondavam em torno das repartições do Estado, tinham encontrado um patrono num homem político, alta figura de relevo na história Constitucional, o conselheiro Gama Torres. A protecção que dispensava porém à Bandeira este homem notável, era, como dizia finamente o Conde – platónica, toda platónica! Não lhe dava dinheiro, porque, chefe de família, entendia, e muito bem, que a política não deve sorver fortunas, mas, pelo contrário, produzi-las. Não dava tão pouco ideias, porque, apesar da sua alta ilustração, que o torna um dos nossos grandes contemporâneos, a sua prudência, a sua reserva eram tais, que raras vezes se lhe tinha ouvido uma opinião nítida.

Sabia-se que aquela fronte um pouco calva, de entradas largas, estava recheada de ideias; somente conservava-as como um tesouro escondido. Era, por assim dizer, um avaro intelectual. As suas ideias eram para si; no silêncio do seu gabinete, agitava-as como o velho Grandet agitava o seu ouro, regalando-se do seu brilho e da sua sonoridade. Mas se alguém entrava de repente, aferrolhava tudo à pressa no cofre do cérebro, e a sua larga testa, de entradas altas, não oferecia mais que uma fachada impenetrável e monumental, que impressionava a todos e não aproveitava a ninguém. (…)”

(in O Conde d’Abranhos, Eça de Queirós)

Não é fácil aceder a boa informação em Portugal. Não me refiro à falta de bibliotecas, sequer à falta de acesso a documentos importantes, como legislação, que está inclusivamente disponível via Internet. Não me refiro à informação “em bruto”, antes noto a falta de traduções de manuais de texto de referência, e de manuais de texto de autoria nacional – sobretudo daqueles que fazem a transição entre o conhecimento teórico e a prática laboral. Parece-me que em Portugal não há edição de livros científicos de cunho nacional numa cadência sequer próxima da de outros países com o mesmo nível de desenvolvimento.

"Prometeu traz o fogo à Humanidade", Heinrich Füger.

No caso concreto de Farmácia, reparei que não existem livros, por exemplo, acerca dos sistemas informáticos usados nas farmácias de Oficina. Ou um manual – simples – que abordasse as questões do receituário, nomeadamente os organismos existentes, a sua razão de ser, a legislação, por exemplo, aplicável a uma receita para que esteja válida.

“Seria demasiado fácil”, poderá responder alguém. Mas porque não? Porque é que as questões “prácticas” da Farmácia Comunitária, ou mesmo da Farmácia Hospitalar só podem ser aprendidas in loco, e não podem estar (bem) tratadas em edições próprias? Separadamente – e este é o meu ponto – do corpo de conhecimento teórico, científico-clínico, que se abordou na universidade.

Em suma, parece-me que a Práctica Farmacêutica, por comparação com os manuais ingleses e franceses a que tive acesso, está mal explorada em Portugal. Um exemplo: na questão de Indicação Farmacêutica (fundamental aplicação no “real” dos conhecimentos teóricos), apercebi-me de que fora editado pela ANF , há algum tempo, um manual de qualidade . Perguntando directamente à ANF pelo mesmo, soube que está actualmente esgotado. Encontrei-o somente disponível para consulta, na biblioteca da FFUL.

Parte dessa falta será explicada, logicamente, pela pequena dimensão do mercado nacional. E, hoje em dia, a cópia fácil, em reprografia ou via Internet, também desencoraja quem esteja disposto a investir o seu esforço em tal empresa. Finalmente, e talvez mais importante, há também o facto de editoras brasileiras terem ocupado esse vazio.

Outro factor, porém - mais arcaico - é alguma de predisposição, como povo, para “o segredo” ser, com efeito, a “a alma do negócio”. Num país pequeno, em que a imitação é comum, e a escassez de lugares está sempre latente, o know-how é (ainda mais) um bem. Em qualquer ramo – e o ramo farmacêutico é exactamente como os outros, nesse aspecto. Tenho ouvido relatos de outras pessoas que, começando um cargo, se vêem obrigadas a “garimpar” pelo conhecimento básico, necessário ao cumprimento da sua função. Quase diria que Portugal sempre foi uma “sociedade do conhecimento”, e por isso gosto de recorrer - como alívio cómico - à caricatura do conselheiro Gama Torres, que fez Eça de Queirós.

Refiro-me a este aspecto não por capricho, porque me teria sido conveniente dispor de tais livros na preparação deste trabalho – já… bastarão os ridículos a que não me consigo escusar. Antes, aproveito-o para realçar que as universidades de hoje não são mais o repositório do conhecimento que foram outrora. A edição de livros científicos, de carácter básico, ou adaptados à realidade do trabalho, em Portugal - por autores portugueses - é um passo para a melhoria dos procedimentos, e da qualidade dos profissionais. A competição hoje em dia é global, e feita com base em padrões internacionais, a que não se pode escapar. Quanto mais, e mais cedo, as novas gerações puderem começar a partir de informação “tratada”, mais longe irão - mais criativos serão. É essa criatividade que fará realmente a diferença.

Fica por saber se as gerações vigentes terão a generosidade necessária de “poupar” esse tempo de aprendizagem às vindouras. Se não, estaremos provavelmente condenados a ter um português que, saído da universidade, conseguiu, a esforço, tornar-se um perito no emaranhado de requisitos legais necessários a obter uma comparticipação estatal de uma receita, contra um chinês ou um americano que, por as suas sociedades não reconhecerem “valor” a esse tipo de conhecimento, e terem procedimentos mais simples, se concentram antes em evoluir a nível científico-técnico.

Na escolha dos temas para esta tese – determinado previamente o tema A – escolhi, para Farmácia Comunitária, a Indicação na Infecção Urinária e a Contracepção Hormonal de Emergência (CHE), e, para Farmácia Hospitalar, a Terapia do Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH).

A opção pelos dois primeiros temas é muito simples: aquando do meu estágio pareceram-me ser duas… “situações-limite”, com que eu teria, de futuro, que lidar ao balcão. Por “situação-limite” refiro-me a uma situação que escapa ao rotineiro, que “emerge” de entre os actos de um farmacêutico ao balcão. Uma farmácia comunitária não é um serviço de Urgências, mas há situações de maior tensão – e que exigem uma postura distinta do farmacêutico.

No caso da infecção urinária, há uma questão que vai dividir o farmacêutico. Frequentemente, a mulher (uma vez que são típicas das mulheres) descreve uma recidiva, e pede um tratamento, sem receita médica, que já lhe foi prescrito anteriormente – normalmente antibiótico. Ao farmacêutico está vedada a dispensa de antibióticos sem receita médica, por um lado. Por outro lado, a situação é perfeitamente identificável pela doente (de tal forma que médicos há que prescrevem receitas renováveis de antibióticos para algumas doentes usarem, quando ocorrerem recidivas), e a mesma responde mal à necessidade de ir “perder tempo” para as Urgências de um hospital, ou para um Serviço de Atendimento Permanente (SAP), com o intuito de obter a necessária receita – ainda para mais afligida pelos sintomas desta condição. Este caso configura, a meu ver, uma “zona cinzenta”, que confunde a justificação racional para a interdição de dispensa de antibiótico, e, inclusivamente, será exposta a posição de um autor que defende a liberalização da dispensa do antibiótico trimetoprim.

Já no caso da Contracepção Hormonal de Emergência, o carácter especial, ou de “situação-limite”, advém da sensibilidade com que é necessário discutir o tema com o/a requerente da mesma. Embora hajam pessoas que a banalizem – algo que deve ser contrariado – poderá ainda existir algum constrangimento no seu recurso, e haverá a necessidade de aferir correctamente as condições em que permite evitar a gravidez, desfecho de grande impacte psicológico.

O critério que me levou à escolha da Terapia do VIH como tema para a monografia de Farmácia Hospitalar foi diferente – está relacionado com a falta de preparação que senti, aquando do estágio no Hospital Pulido Valente, que dispensa medicação aos doentes infectados pelo vírus. Foi uma lacuna que identifiquei claramente, e aproveitei este trabalho para a tentar dirimir

"Mão com esfera reflectora", M. C. Escher.

Menos Obscenidade, Mais Pornografia, Por Favor!

Eu tento seguir erimita, mas as pessoas teimam em contar-me os problemas e, alas, continuo a evitar dar uma marretada na televisão.

Há vários anos que eu digo, escrevo (e eu bem sei do número elevado de portugueses que seguem as minhas opiniões - eles hão-de, naturalmente, lembrar-se), que Portugal atravessa um deserto da ofensa à inteligência. Nomeadamente por parte dos seus governantes, elites, e "parceiros sociais". Temos perante nós uma situação encapotada de asfixiamento da juventude, por parte de uma classe etária acomodada, que não compete, não é avaliada, que se mexe na sombra - mas mexe em tudo, e condiciona a ascenção dos mais novos.

Repare-se, por exemplo, que as coorporações têm inclusive aumentado, no nosso país. Como se não bastasse o aumento do Estado e a infecção burocrática europeia. Tudo conflui para uma geração vigente, demasiado vigente, que tudo controla, enquanto uma outra assiste em baixo, se sujeita, evita casar e vive em casa dos pais até aos 30, esboroa todos os sonhos e ambições que não envolvam dinheiro fácil, carros de luxo, sexo, futebol. Quem estuda "à antiga" é um excêntrico, quem lê é um excêntrico, quem vive sem nada do Estado é um excêntrico.

Muito prazer.

Parte de mim muito gostaria de prosseguir uma vida ociosa, com dinheiro fácil garantido, sexo ainda mais fácil, champanhe, viagens, carros velozes. A questão é que não vejo isso a acontecer. A sociedade teima em não me entronizar, por uma qualquer razão. Por isso, optei por fazer o meu percurso, trabalhar enquanto coetâneos me gozam por o fazer, tentar a minha sorte perfeitamente sozinho, no meu meio profissional. Um pouco à maluca, mas eu até sinto que ganhei a minha aposta.

Voltanto atrás, porém, é claríssimo existirem hoje duas gerações de portugueses: aqueles, mais velhos no jogo, que dominam Estado, corporações, administrações de empresas, sindicatos, e reformados (velhos e semi-velhos...), e o resto, em que se mistura uma classe média com filhos encalhados, assustados empregados nas estruturas de tudo isto, tantas vezes "escravizados", qualquer que seja o seu mérito, e, claro, os típicos "furas-vidas", ociosos subsidiodependentes, que têm o instinto de perceber que estão a ser encornados - por isso, num maguito, se recusam a mexer palha.

Voltando à questão da ofensa à inteligência, vejam como as medidas de contenção que o Governo propõe, mesmo que fossem virtuosas (infelizmente provar-se-ão, temo bem, terem efeitos contraproducentes e contracturantes na Economia), são obscenamente discrecionárias. Ninguém mexe na estrutura mastodôntica do Estado - não - ninguém privatiza o sorvedouro que é a RTP, ninguém-ninguém corta - percebem agora? - na geração vigente.

Cortam nos portugueses que têm a mania de serem melhores que os outros - os independentes -, e na geração subjugada: aqueles que não foram espertos o suficiente para se meterem no Estado, para se meterem nos sindicatos, para se meterem nas câmaras, para se meterem nas Ordens, para se meterem. Até mesmo aqueles que aí se meteram - mas só são mandados. Mesmo aos "fura-vidas" do maguito cortam o subsídio de desemprego, algum dia o rendimento mínimo.

Eis o país, em 2010 - de um lado os ofensores da inteligência, do outro os ofendidos. Os primeiros ocupam, e dão a cenoura (subsídios, empregos, aconchegos vários) e o chicote (supressão da liberdade, como eu lhe chamo, por censura-vodu - o de cima não profere as palavras claras, só dá sinais que o de baixo usa para se auto-limitar). Os ofensores fingem que não estão a ofender (o que faz parte da ofensa, claro), os ofendidos fingem não estarem a ser ofendidos (temos é que viver um dia de cada vez - podia ser pior).

Eu não quero muito falar sobre tudo isto, porque o acho perfeitamente obsceno. Tão obsceno que me cansa, por deprimente que nem sequer o achemos todos obsceno. E em vez disso tento fantasiar, escapar, e penso que a minha televisão, os relatos que me contam, deveriam estar esvaziados de obsceno. Porque não substituídos por pornografia?

Em vez de Mário Crespo, uma pornstar loira, esbelta, linda de morrer. Em vez de RTP as produções da Vivid Entertainment. Em vez da Fátima Campos Ferreira, uma checa deslumbrante. Em vez da nova apresentadora da Sic Notícias... hum... espera - essa pode ficar.



Em vez de os clientes me chatearem no trabalho - uma francesa a despir-se suavemente até ficar de lingerie. Em vez de ir a andar para casa, uma limusine onde uma americana me espera só com um copo de champanhe e uma estola negra. Em vez de um quarto vazio de onde escrevo este post, um quarto onde duas amigas de olhos azuis esperam uma massagem na cama.

Ah... fosse o (meu) mundo mais pornográfico e menos obsceno... Que menos dignidade não teria - de tanto estou certo.

(...)
Subitamente - que visão de artista! -
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista;
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!
(...)

Cesário Verde, in "Num Bairro Moderno"