quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Triunfo Dos Porcos

Por razões que talvez possa abordar num post mais a jeito, um dos meus livros favoritos é o Animal Farm de George Orwell. Alguns de vocês, eruditos, poder-se-ão lembrar que o título da tradução em Português ficou O Triunfo dos Porcos - por razões que talvez possa abordar num post mais a jeito.

Ora bem, vem isto a propósito do "nick" carinhoso com que o pessoal que lê o Financial Times trata o países mediterrânicos: PIGS. Portugal, Itália, Grécia e Malta. Espera - Malta não existe para além das participações nos Jogos Sem Fronteiras. Eu queria dizer era Espanha.

Pois é. De todos os PIGS assolados pelo pânico da dívida soberana (safa-se melhor a Itália, suspeito que nem queremos bem saber como...), eis aquele que, pelo meio do doom and gloom respondeu à notício-cracia mundial, ganhando, com Justiça, um Mundial de Futebol. Não é exactamente um crescimento do PIB, mas caramba - também ajuda, hombre. Ajuda a que o país seja respeitado, e tido em consideração. Marketing, mis amigos.

(Pequeno aparte: não parece esta vitória uma espécie de "endgame" de Espanha? Um plano urdido para ter uma elite de desporto mundial - é o Alonso, o Nadal, o Gasol, etc, etc? Desde influência política até camadas jovens até inusitada exportação dos talentos... parece tudo um plano perfeito).

Mas espanta-me a reacção de estranheza quando digo que gostei que Espanha ganhasse à Holanda (não me digam que aquela é uma Holanda-Holanda, bastava ver como Van Persie ou Van Bronckhorst pareciam mais estar a cumprir calendário). Como se fosse uma traição a ser português. Give me a break... Eu gostei que Espanha ganhasse porque Espanha jogou mais, primeiro, mas também porque gosto da cultura espanhola.

Como li um dia a Francisco José Viegas, eu não sou um iberista (no sentido que Saramgo lhe deu, de união dos povos), mas eu sou um espanholista. Eu gosto do país. Eu gosto da comida. Eu adoro a língua, adoro ler em Espanhol - até livros científicos. Eu gosto dos melhores sentimentos espanhóis: a franqueza, a espontaneidade (um Casillas sem mais merdas a dar um beijo à Carbonero), a coragem. Gosto, pá. O que é que querem?

Eu tenho saudades de ler o La Vanguardia, apetece-me assinar a Interviú e comprar um livro do Francisco Umbral, ler enfim o Ortega y Gasset como deve ser. Sinto saudades de Barcelona. Eu não sou diferente de ninguém, não venham com tretas - gosto do melhor de Espanha, e dispenso convenientemente o resto, que o há.

Mas isso não cai bem a alguns portugueses. Lembro-me sempre do benfiquista que gritava contra o Quique Flores: 'Eu nem de espanholas gosto, quanto mais de espanhóis!'. Tudo isto é extremamente positivo na eventualidade de Espanha decidir invadir-nos. Como isso, no entanto, só acontece para aí de quinhentos em quinhentos anos, torna-se uma espécie de má-educação visceral que constrange os (poucos) portugueses como eu. Talvez os seus descendentes em 2452 defendam o país, e mostrem 'ter razão'. Não digo que não, chavais, mas até lá, deixem-me disfrutar Espanha no seu melhor, ok?

E, por isso, concluo com a tal canção, que descobri ser de um Manolo Escobar inevitavelmente andaluz. A canção é inócua, não contagia... Podem ouvir. Arranjei maneira de a majestade simples da música ser contraposta por um estilo ridículo dos anos 70. Para vocês.