sábado, 24 de julho de 2010

Nádegas A Declarar

E assim que vi aquele rabo perfeito, daquela loira conhecida (já arrebitada no carácter), as nádegas que se irmanavam perfeitamente, nutridas e desenhadas, de mão dada em direcção à porta, sob a cor - táctil - das calças desportivas de algodão, cinzentas - ocorreu-me: é isto. E isto é, meus amigos, não só um rabo perfeito, não só a imagem do meu dia, mas também o último reduto da nacionalidade. Yap.

O que define uma nação, hoje em dia? Hoje em dia de globalização, em dia do poliglota de necessaire, em dia do dinheiro e o corpo como os únicos sagrados e mínimos denominadores comuns? O que nos define de uma nação, mais que o destino dos impostos, e a proveniência dos subsídios, das reformas (do dinheiro)? Mais do que a equipa de futebol a jogar à bola (apenas uma metáfora). O que resta depois disso?

Talvez um fantástico par de nádegas. Aquele que só poderíamos apreciar tão completamente no nosso país, e em mais nenhum local na Terra (o corpo, sim, mas só aquele). É o derradeiro apelo telúrico, a panaceia de todas as desilusões e injustiças. É mágico e magnético. Prende-nos a um sítio.

É por isso que me apeteceu relevar a nova campanha da Sloggi, aproveitando o Tour. Well-rounded indeed. E é por isso que arrisco na fonte de inspiração dos autores - o Bicycle Race/Fat Bottomed Girls dos Queen.

E é por isso que também evoco, como já merecia neste blog, Tinto Brass, o mestre italiano. (Curiosamente, duvido que Freddy Mercury gostasse de ser relacionado com "the likes" do Tinto, mas eu até os acho parecidos num pormenor: da mesma forma que me parece os Queen estragarem momentos melódicos divinais com um resto de canção dissonante, creio que Tinto, muito embora tenha produzido sublimes, incomparáveis, momentos de erotismo, transborda a perversão para estragar o resto dos seus filmes. Que pena. Sejam perfeitos da próxima vez).

Ah - e é por isso, finalmente, que recordo (outra vez...) Bárbara Borges e o poema de Drummond de Andrade (para além do título do post, o mesmo da música de Gabriel O Pensador/Fernanda Abreu) para homenagear o país mais honesto nesta deliciosa questão. Aí não há dúvida de como a bunda é tesouro, é produto - é sentido da nação.

Dito isto que se segue, meus amigos, dito tudo isto, não tenho absolutamente mais nádegas a declarar.

I.






II.





III.




IV.





A Bunda, Que Engraçada

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.

Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora — murmura a bunda — esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gémeas

em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.

Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,

redunda.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)





V.

Yap. Quod erat demonstrandum. Demonstrand-(bumb)um.