Os momentos-Carolina são a antítese dos anteriores. Servem para controlo e manipulação - pequena tortura pelas mulheres, para os homens que não chegam. Esta já não é a face da generosidade, do exibicionismo vital, da tolerância. Atenção, pois.
O nome vem desta passagem de "Manhã Submersa", de Vergílio Ferreira, que expressa bem o toreio jocoso a um touro que não sabe investir, resfolegante embora. E assim o torturam e lhe espetam farpas, impiedosamente.
"(...) Ora precisamente, como me sabiam algemado no fato preto, brincavam todos comigo, desafiando-me cobardemente para o terreno proibido. Eu não imaginava que isso pudesse acontecer, e tive por isso uma estranha revelação. Quando andava na instrução primária, lembro-me de alguns rapazes atirarem às raparigas que passavam gracejos a que elas não podiam responder. E já naquelas férias, uma vez que a Carolina saía de uma loja com uma pilha de lenha, o Calhau, sorrateiramente, atirou-lhe a mão aonde não devia, e disse-lhe duas palavras clandestinas. Carolina, afogueada de cólera, só soube responder:
-Vá-se lavar, seu velho jarreta.
- Mas tu queres mesmo saber se eu sou velho? - perguntou o Calhau muito sério.
E Carolina embuchou. Mas, na véspera do meu encontro na serra com os antigos companheiros, Carolina procedera comigo como o Calhau com ela. Depois de me servir a sopa, cruzou os braços sobre a mesa volumosa dos seios e plantou-se-me diante a ver-me comer. Sempre que eu erguia os olhos, logo aqueles dois seios se atiravam sobre mim, e me inchavam na mão, na cara, noutros sítios. Carolina, orientada talvez pela sua necessidade, deu logo conta da minha perturbação. E brincando comigo, como se eu fosse mais mulher do que ela, debruçou-se para mim num segredo:
- Já te apetecia, não?
Oh, eu nem respondi. (...)".
in "Manhã Submersa", Vergílio Ferreira (1916-1996)
O nome vem desta passagem de "Manhã Submersa", de Vergílio Ferreira, que expressa bem o toreio jocoso a um touro que não sabe investir, resfolegante embora. E assim o torturam e lhe espetam farpas, impiedosamente.
"(...) Ora precisamente, como me sabiam algemado no fato preto, brincavam todos comigo, desafiando-me cobardemente para o terreno proibido. Eu não imaginava que isso pudesse acontecer, e tive por isso uma estranha revelação. Quando andava na instrução primária, lembro-me de alguns rapazes atirarem às raparigas que passavam gracejos a que elas não podiam responder. E já naquelas férias, uma vez que a Carolina saía de uma loja com uma pilha de lenha, o Calhau, sorrateiramente, atirou-lhe a mão aonde não devia, e disse-lhe duas palavras clandestinas. Carolina, afogueada de cólera, só soube responder:
-Vá-se lavar, seu velho jarreta.
- Mas tu queres mesmo saber se eu sou velho? - perguntou o Calhau muito sério.
E Carolina embuchou. Mas, na véspera do meu encontro na serra com os antigos companheiros, Carolina procedera comigo como o Calhau com ela. Depois de me servir a sopa, cruzou os braços sobre a mesa volumosa dos seios e plantou-se-me diante a ver-me comer. Sempre que eu erguia os olhos, logo aqueles dois seios se atiravam sobre mim, e me inchavam na mão, na cara, noutros sítios. Carolina, orientada talvez pela sua necessidade, deu logo conta da minha perturbação. E brincando comigo, como se eu fosse mais mulher do que ela, debruçou-se para mim num segredo:
- Já te apetecia, não?
Oh, eu nem respondi. (...)".
in "Manhã Submersa", Vergílio Ferreira (1916-1996)