sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Suástica de Salto Alto
Eu sei que estou gordo. E é verdade que chamo ao meu estilo negligé, para não ter que assumir que ele não existe. E bem sei que a falta de jeito e o nefelibatismo não ajudam.
Mas isso não é razão para, ao andar pelas Amoreiras, eu me sentir como um judeu no quartel da Gestapo, pois não?
É que já bastam os SS do Corte Inglés.
Mas isso não é razão para, ao andar pelas Amoreiras, eu me sentir como um judeu no quartel da Gestapo, pois não?
É que já bastam os SS do Corte Inglés.
Reparação de Dichote
Agora que tive o meu primeiro acidente de carro (calma - não abrandem já: foi só alguma chapa, ninguém se magoou), vou ter substituir o mantra "Acidentes? Isso só acontece aos outros..." por algo mais apropriado ao meu caso.
Que tal: "Conviver com raparigas inebriantemente giras? Isso só acontece aos outros...". Troca o pedantismo pela melancolia - não podia pedir mais. Esse sim - é apropriado.
Só me ocorre como não muito correcta a utilização de "inebriante" e "acidente de carro" no mesmo raciocínio. Mas bom - eu depois arranjo maneira de dizer que a culpa não foi minha. Aquele "inebriante" entrou no parágrafo lançado, nem tive tempo de o travar.
Que tal: "Conviver com raparigas inebriantemente giras? Isso só acontece aos outros...". Troca o pedantismo pela melancolia - não podia pedir mais. Esse sim - é apropriado.
Só me ocorre como não muito correcta a utilização de "inebriante" e "acidente de carro" no mesmo raciocínio. Mas bom - eu depois arranjo maneira de dizer que a culpa não foi minha. Aquele "inebriante" entrou no parágrafo lançado, nem tive tempo de o travar.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Extremófilos
Uma das felicidades - os cínicos colocarão um "poucas" antes das mesmas - de ser sportinguista é a surpresa de... encontrar similares. Por exemplo, aconteceu-me no outro dia um apresentador que eu juraria ser benfiquista declarar-se sportinguista. O quê? Este indivíduo é sportinguista?
Pois é. E a coisa explica-se de forma simples e estatística: existem mais benfiquistas. Parte do prazer de ser sportinguista é ser 'do contra'. Ir contra a maré. Como explicá-lo de outra forma? É mesmo assim.
Mas essa mania, de não querer estar ali no meio da distribuição normal, faz com que se tome por adquirido que todas as outras pessoas são benfiquistas. Até que se confessem em contrário. E mesmo então há a questão do Porto.
Donde, é sempre uma surpresa interessante descobrir um sportinguista - especialmente em quem juraríamos que tem 'pinta' de benfiquista.
Hei - cada um alimenta o clubismo com o que pode.
Nota (só para 'nerds'): É possível uma distribuição normal a partir de dados qualitativos?
Pois é. E a coisa explica-se de forma simples e estatística: existem mais benfiquistas. Parte do prazer de ser sportinguista é ser 'do contra'. Ir contra a maré. Como explicá-lo de outra forma? É mesmo assim.
Mas essa mania, de não querer estar ali no meio da distribuição normal, faz com que se tome por adquirido que todas as outras pessoas são benfiquistas. Até que se confessem em contrário. E mesmo então há a questão do Porto.
Donde, é sempre uma surpresa interessante descobrir um sportinguista - especialmente em quem juraríamos que tem 'pinta' de benfiquista.
Hei - cada um alimenta o clubismo com o que pode.
Nota (só para 'nerds'): É possível uma distribuição normal a partir de dados qualitativos?
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Querido Diário - 37
Isto cada vez há menos vergonha. Hoje uma senhora - de meia-idade! - numa farmácia, pergunta-me se eu não quero uma produto qualquer que ela tinha na mão. Mas de um modo muito estranho. E eu respondi-lhe: "- Minha senhora: eu não conheço nenhum coiro, muito menos nenhum coiro cabeludo. E se conhecesse, certamente que não ia gastar o meu tempo a penteá-lo!".
Naturalmente, ficou-se. Um bocado espantada com a reacção, mas ficou-se.
Naturalmente, ficou-se. Um bocado espantada com a reacção, mas ficou-se.
Querido Dário - 36
As pessoas da Cidade são estranhas. Não respondem obrigado e comem sempre com garfos. Gostava de saber onde é que isto tudo ia parar se não fosse a gente a fazer batata nova. Isto é gente que não sabe o que é um derregar de horta, ou um tratar as oliveiras. Bem querem eles saber.
Será isto aquilo a que eles chama Civilização? Cá para mim, não acredito - o Ti Plácido sempre disse que não havia disso em Portugal. Que era como às gibóias que ele viu em África - existe mas é lá fora.
Isto aqui é caso de aprender a viver sem dizer nada. Esperar numa fila calado, seguir para casa calado, voltar calado. Diz que se não se falar pela televisão - ninguém escuta. E têm cá daqueles caixotes a que chamam computadores, porque não lhes chega a televisão. Não conheço nenhum que tenha um porco à espera para matar no Inverno, e quanto a searas de milho - só se for entre os prédios, que eu não as vejo. Alguns cães, é verdade - ao menos não se estraga os restos de comida.
Mas acho estranha esta gente. É diferente, parece estar sempre a pensar em qualquer outra coisa. Nunca sei se é no tal de sexo, se é só em dinheiro. Às vezes é nos dois. Não - isto é uma zona chata - nem uma latada de tomates me deixam ter, vê lá.
Só têm é muita mouça bonita. Até me perco. Aliás - deve ser por isso que eles cá ficam. O Ti Jaquim até tinha um ataque cardíaco. O médico bem o tem avisado para ele largar a chouriça - que aquilo não lhe faz bem ao coração.
Mas tenho saudades dos meus cães. Isto aqui não é vida. Tenho saudades dos tiros do Clemente, e das berrarias do Freitas no café.
Diz que o sacana do Ti Tónio tem lá uma horta que mete cobiça. Eu não lhe digo nada, que ele tem medo dos maus olhados, agora em velho deu naquilo. Já o pai dele era assim...
Bom - tenho que ir. A ver se chega a matança do porco breve, para voltar.
Será isto aquilo a que eles chama Civilização? Cá para mim, não acredito - o Ti Plácido sempre disse que não havia disso em Portugal. Que era como às gibóias que ele viu em África - existe mas é lá fora.
Isto aqui é caso de aprender a viver sem dizer nada. Esperar numa fila calado, seguir para casa calado, voltar calado. Diz que se não se falar pela televisão - ninguém escuta. E têm cá daqueles caixotes a que chamam computadores, porque não lhes chega a televisão. Não conheço nenhum que tenha um porco à espera para matar no Inverno, e quanto a searas de milho - só se for entre os prédios, que eu não as vejo. Alguns cães, é verdade - ao menos não se estraga os restos de comida.
Mas acho estranha esta gente. É diferente, parece estar sempre a pensar em qualquer outra coisa. Nunca sei se é no tal de sexo, se é só em dinheiro. Às vezes é nos dois. Não - isto é uma zona chata - nem uma latada de tomates me deixam ter, vê lá.
Só têm é muita mouça bonita. Até me perco. Aliás - deve ser por isso que eles cá ficam. O Ti Jaquim até tinha um ataque cardíaco. O médico bem o tem avisado para ele largar a chouriça - que aquilo não lhe faz bem ao coração.
Mas tenho saudades dos meus cães. Isto aqui não é vida. Tenho saudades dos tiros do Clemente, e das berrarias do Freitas no café.
Diz que o sacana do Ti Tónio tem lá uma horta que mete cobiça. Eu não lhe digo nada, que ele tem medo dos maus olhados, agora em velho deu naquilo. Já o pai dele era assim...
Bom - tenho que ir. A ver se chega a matança do porco breve, para voltar.
Querido Diário - 35
Tive um acidente de carro. A canga dos bois soltou-se e o Jeremias ficou pegado ao prado do Ti Giraldo. Nenhum esforço permitia arredar dali o animal. A Mimosa é que se portou bem, coitada - nem agitou a canga nem nada. Uma grande vaca, é o que te digo. Ando um bocado farto daquele Jeremias. Se o bicho tivesse mais quadris, eu substituía-o na Feira de Santana - mas posso precisar mais dele agora no Inverno.
E foi assim - tive um acidente de carro. Liguei para a TeleSeguro, mas os gajos responderam que não cobrem animais. Como não gosto que me ofendam, mandei-os também a um certo sítio. Ainda por cima atendeu-me um gajo - aqueles anúncios é tudo mentira, é o que te digo.
E foi assim - tive um acidente de carro. Liguei para a TeleSeguro, mas os gajos responderam que não cobrem animais. Como não gosto que me ofendam, mandei-os também a um certo sítio. Ainda por cima atendeu-me um gajo - aqueles anúncios é tudo mentira, é o que te digo.
Querido Diário - 34
832. Contei-os a todos: 832. Há - exactamente - 832 locais onde eu preferia estar sempre que um dos meus pais começa a falar de algo remotamente similar a sexo. Tive tempo para os contar. Os locais incluem uma prisão no Haiti, um bar manhoso na Sibéria, uma plantação de noz moscada no Suriname, uma torre de vigia nas Berlengas, um programa de televisão na Albânia, e um piquenique em Nassíria.
832. Pensando vem, ainda vou contar outra vez.
832. Pensando vem, ainda vou contar outra vez.
Se a Finitude Te Chamar
Aqui -
Onde a Ciência acaba
Fica só uma impressão.
Aqui -
Onde a Ciência acaba
Falta justificação.
Aqui -
É a fronteira
De quem eras;
Se olhares demais
Nada lembrarás
Desta vida -
Senão quimeras.
Aqui -
Se acabam os sonhos,
Finalmente
E há só dias de trevas,
A vida é guardada dormente
E tu dirás
Que nunca a conheceste.
Aqui -
Tens as tuas visões,
As tuas lições
Do pior mundo -
Chama-lhe o que te aprouver,
Mas lembra-te ao menos
Que te foi dado a escolher.
Aqui -
Ouves os sons dos danados,
Ouves suas maldições,
Espantas venais agressões -
Ouves
Prazeres trinados;
Aqui pedirás para esquecer
A energia
Dos condenados.
Daqui -
Não poderás escapar
Mais que uma vez.
Para eles
És só carne,
Carne de uma qualquer forma;
Para eles és só
Aquilo a cada um
Se conforma
(E não há nada mais).
Aqui -
Aprenderás que a liberdade
Não é algo natural
(Para todos, afinal)
E perguntarás se fugir há
Também de um ideal
(Se a finitude te chamar).
Aqui -
A dignidade sempre foi
Um erro de Ícaro,
Fatal erro estatístico
E o Bem, o Mal
Um logro contabilístico.
Aqui -
Amanhã, quem tu viste
A renegar a esperança
Olhará para ti -
Com os olhos de uma criança.
Aqui -
Escolhes ceder ou recordar...
Mas se eu te escrevo
É porque os podes quebrar.
Pedro Oliveira
Onde a Ciência acaba
Fica só uma impressão.
Aqui -
Onde a Ciência acaba
Falta justificação.
Aqui -
É a fronteira
De quem eras;
Se olhares demais
Nada lembrarás
Desta vida -
Senão quimeras.
Aqui -
Se acabam os sonhos,
Finalmente
E há só dias de trevas,
A vida é guardada dormente
E tu dirás
Que nunca a conheceste.
Aqui -
Tens as tuas visões,
As tuas lições
Do pior mundo -
Chama-lhe o que te aprouver,
Mas lembra-te ao menos
Que te foi dado a escolher.
Aqui -
Ouves os sons dos danados,
Ouves suas maldições,
Espantas venais agressões -
Ouves
Prazeres trinados;
Aqui pedirás para esquecer
A energia
Dos condenados.
Daqui -
Não poderás escapar
Mais que uma vez.
Para eles
És só carne,
Carne de uma qualquer forma;
Para eles és só
Aquilo a cada um
Se conforma
(E não há nada mais).
Aqui -
Aprenderás que a liberdade
Não é algo natural
(Para todos, afinal)
E perguntarás se fugir há
Também de um ideal
(Se a finitude te chamar).
Aqui -
A dignidade sempre foi
Um erro de Ícaro,
Fatal erro estatístico
E o Bem, o Mal
Um logro contabilístico.
Aqui -
Amanhã, quem tu viste
A renegar a esperança
Olhará para ti -
Com os olhos de uma criança.
Aqui -
Escolhes ceder ou recordar...
Mas se eu te escrevo
É porque os podes quebrar.
Pedro Oliveira
sábado, 19 de setembro de 2009
Amor Que Outro Amor Teme
O Amor abafa,
O Amor oprime
Esse outro Amor
Que enfim nos redime.
O Amor engana,
O Amor controla,
O Amor de criança,
A vida na sacola.
O Amor recorda,
O Amor impede
Outro tanto Amor
Que à vontade...
Ainda não cede.
A Amor enjoa,
O Amor confunde,
E nos faz chorar
Por já nem saber
Quem nos deve amar.
O Amor protege,
O Amor recupera,
Mas demais nos rege
Nos torna um segredo -
Faz nosso o seu medo
De outro Amor à espera.
Pedro Oliveira
O Amor oprime
Esse outro Amor
Que enfim nos redime.
O Amor engana,
O Amor controla,
O Amor de criança,
A vida na sacola.
O Amor recorda,
O Amor impede
Outro tanto Amor
Que à vontade...
Ainda não cede.
A Amor enjoa,
O Amor confunde,
E nos faz chorar
Por já nem saber
Quem nos deve amar.
O Amor protege,
O Amor recupera,
Mas demais nos rege
Nos torna um segredo -
Faz nosso o seu medo
De outro Amor à espera.
Pedro Oliveira
Reading List 7
Eu não costumo ler à Prof. Marcelo - na transversal - mas este livro foi mesmo assim. Teve que ser, porque Veitch, um famoso apostador britânico, conta uma vida inteira ligada às apostas de cavalos - e a minha ignorância desse mundo não se deixou suplantar pela curiosidade inicial. Curiosidade de ler sobre um apostador de sucesso, que fez vida e fortuna a partir das suas apostas (à atenção dos Bwin(begin)-ners por aí fora). Muito interessante do ponto de vista da própria filosofia, e suficientemente honesto, pareceu-me.
Nota: a "Reading List" continua a partir daqui.
Nota: a "Reading List" continua a partir daqui.
Uma Razão Egotista Para Ler o "Expresso"
Eh pah... Estou honestamente surpreendido. Afinal este meu post foi lido por alguém. Isto na convicção de a publicação deste artigo no "Expresso", secção de Economia, ter ocorrido posteriormente. Porque, sinceramente, não tenho lido o jornal regularmente (embora no caso do "Expresso" sempre continuem a haver algumas razões para espreitar o jornal).
Quem sabe os jornais consigam recuperar a qualidade perdida (e não o digo pela massagem ao ego). Quem sabe.
Quem sabe os jornais consigam recuperar a qualidade perdida (e não o digo pela massagem ao ego). Quem sabe.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Inocente Por Guerras de Solidão
Antepassados de um dia
Que me atormentam ainda;
Cansaços...
De não sei que vida,
Derrotas...
De não saber que pecados.
Angústia
Àquela hora do dia
Só, ainda mais só
Porque nem à solidão cedo,
Sei bem de mim...
E desconfio-me ledo.
Mulheres belas passam -
Então -
Pelo espectáculo da solidão.
A minha,
A delas...
Que homens as conhecerão,
Que não
Por suspiros de olhares de amares?
Sem segundos precisares
De saber continuar?
Àquela hora, a alma aflita
Por assim se não entregar
Teme a Morte, ou só desdita
Que a impeça celebrar
A Vida que andou a guardar.
E revisita
As pequenas coisas aquém
De desejar alguém
Mais do que a si mesma -
De alma que ainda não tem
Credores a cobiçar
A Vida que andou a guardar.
Tenho saudades
Das mulheres do meu país -
Que nunca o conheci.
Quisera a alma completa
Onde a falta concebi -
Mas a solidão aperta-me
Sempre para longe dali.
Que se possam esquecer -
A alma deve continuar
Por horas a pisar dor,
Mas a Vida
Ouvir-se-à em louvor
Numa perfeita lição:
Se um país te não quiser,
Se tão distante uma mulher
Te salvará do absurdo
Deus -
Ele te deu Vida e quer
Um amor a criar-te outra nação.
Deixarás a pátria, que te não prefere
Deixarás enleios por outra mulher
Deixarás o sonho que Ele te legou
Deixarás o nome que se libertou.
Pedro Oliveira
Que me atormentam ainda;
Cansaços...
De não sei que vida,
Derrotas...
De não saber que pecados.
Angústia
Àquela hora do dia
Só, ainda mais só
Porque nem à solidão cedo,
Sei bem de mim...
E desconfio-me ledo.
Mulheres belas passam -
Então -
Pelo espectáculo da solidão.
A minha,
A delas...
Que homens as conhecerão,
Que não
Por suspiros de olhares de amares?
Sem segundos precisares
De saber continuar?
Àquela hora, a alma aflita
Por assim se não entregar
Teme a Morte, ou só desdita
Que a impeça celebrar
A Vida que andou a guardar.
E revisita
As pequenas coisas aquém
De desejar alguém
Mais do que a si mesma -
De alma que ainda não tem
Credores a cobiçar
A Vida que andou a guardar.
Tenho saudades
Das mulheres do meu país -
Que nunca o conheci.
Quisera a alma completa
Onde a falta concebi -
Mas a solidão aperta-me
Sempre para longe dali.
Que se possam esquecer -
A alma deve continuar
Por horas a pisar dor,
Mas a Vida
Ouvir-se-à em louvor
Numa perfeita lição:
Se um país te não quiser,
Se tão distante uma mulher
Te salvará do absurdo
Deus -
Ele te deu Vida e quer
Um amor a criar-te outra nação.
Deixarás a pátria, que te não prefere
Deixarás enleios por outra mulher
Deixarás o sonho que Ele te legou
Deixarás o nome que se libertou.
Pedro Oliveira
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Eu Já Não Leio o "Público" Por Alguma Razão
Um grande artigo - no meio de tanto ruído - para todos os que se interessem minimamente por Economia. Pela mão de Paul Krugman, na revista do New York Times.
Ainda estou há espera que me expliquem porque é que - de um momento para o outro - deixaram de haver artigos destes nas nossas revistas. Tudo passou a ser mecânico e em grande escala - sem profundidade, ou relevo acima de medíocre. É certo que o autor é prémio Nobel, mas Portugal tem a sua massa cinzenta, embora seja possível que à incúria editorial se acrescente uma típica e infantil vaidade. Nem o país deixa de ter gente inteligente, nem essa gente inteligente deixa de ter defeitos - de um momento para o outro.
Quando muito - e visto que se importa para as revistas nacionais tanta coisa sem interesse - podiam bem traduzí-lo e publicá-lo, não?
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Querido Diário - 33
A minha prima virou-se esta tarde para mim e disse-me: "- Olha lá, eu dos escritores do teu blog só conheço o Hélio, que trabalha na papelaria do Sr. João. Quem é que é o Carbono? E o Hidrogénio?".
Não te rias - ela tem 42 anos.
Não te rias - ela tem 42 anos.
Querido Diário - 32
Leio no jornal que uma senhora Francisca, de Salvaterra, se vestiu de mariachi para servir os clientes do seu restaurante - porque assim será aquele um espaço imune ao virús Dagripá. E se eu não fosse um indivíduo tão guloso estaria a pensar no ridículo desse rationale, e não no facto de ela poder vender deliciosas tortillas ou enchiladas. Salvaterra não é longe, afinal.
Querido Diário - 31
Detesto aquele sacana do italiano. Tinha que agora calhar-me esta prima donna no emprego. Caramba que é demais. Ainda por cima um italiano nada como o esterótipo. O Filippo - eis o nome da importação - só sabe chatear os outros, e ser mesquinho. É fino cultor da ironia e do sarcasmo... Como se não bastasse, tenho quase a certeza que seja gay. Não fosse a Rafaella, por quem os homens do escritório se andam a babar, e ninguém aguentava aquele gajo. É como o ying e o yang.
Esta tarde - imagina (embora sejas uma folha de papel não podes deixar que isso te limite) - não encontrava a mochila preta que sempre traz consigo. Nisto, depois de a procurar pela segunda vez, começou a dizer a dizer que havia de encontrar o "stronzo di m****" que lhe havia escondido a mochila. E disse isto a olhar para mim, num tom uluante e sugestivo. Começei a enfurecer-me. Mas querem ver que o canalha pensa que fui eu que lhe escondi a mala? Diz isso à cara, ó larilas! Pensas que fui diz, ó mafioso de terceira categoria! Diz, pá!
Estive quase a dizer-lhe estas frases em gritos treloucados, com o sabor crocante de ira divina. Em vez disso dei-lhe o tratamento do silêncio. Não lhe disse absolutamente nada. Ah, se tu soubesses... encharquei-o de silêncio que se lixou! Mas na minha mente ele estava enquadrado num cenário estranho, em que pontificavam o Bruce Lee primeiro e o Dexter depois. A minha mãe bem avisou que eu não devia ver tanta televisão... Agora está feito.
Enfim - tive que controlar a fúria. E só conheço, na verdade, uma maneira eficaz de o fazer.
Ora, por várias vezes dou comigo a adivinhar, quando compro uma revista de mulheres artisticamente nuas comó milho, o que pensará a D. Henriqueta quando me a vende. O que é que ela pensa que eu faço com a revista, hein? "- Minha senhora" - apetece-me dizer tantas vezes (embora seja raríssimo comprar revistas deste género - o primo Gustavo assina-as) - "Olhe que não é isso que voc~e está a pensar! Eu sou um esteta, um amante profundo da beleza feminina. E estou a comprar a revista somente para me embevecer e glorificar a divina Vénus. Percebeu ou não?".
Geralmente, pelo "Obrigado" que ela consegue fazer saber a "Pervertido!", acho que não.
Ah, mas passo a explicar: não há nada melhor para combater a fúria que a surpresa, a confusão. O meu sistema está em monotarefa, no módulo 41: 'castigar a canalhice'. E entra um vírus, do tipo 21J 'mulher de quadris hipnotizantes'. Pronto - o sistema entra em ruptura. Já não sabe se se deve focar no canalha ou nos quadris.
Hum... porque é que de repente parece que estou a ver uma cena daqueles filmes manhosos? Canalha, quadris... Hum. "Pervertido!". Ok, D. Henriqueta - eu já ouvi à primeira.
Esta tarde - imagina (embora sejas uma folha de papel não podes deixar que isso te limite) - não encontrava a mochila preta que sempre traz consigo. Nisto, depois de a procurar pela segunda vez, começou a dizer a dizer que havia de encontrar o "stronzo di m****" que lhe havia escondido a mochila. E disse isto a olhar para mim, num tom uluante e sugestivo. Começei a enfurecer-me. Mas querem ver que o canalha pensa que fui eu que lhe escondi a mala? Diz isso à cara, ó larilas! Pensas que fui diz, ó mafioso de terceira categoria! Diz, pá!
Estive quase a dizer-lhe estas frases em gritos treloucados, com o sabor crocante de ira divina. Em vez disso dei-lhe o tratamento do silêncio. Não lhe disse absolutamente nada. Ah, se tu soubesses... encharquei-o de silêncio que se lixou! Mas na minha mente ele estava enquadrado num cenário estranho, em que pontificavam o Bruce Lee primeiro e o Dexter depois. A minha mãe bem avisou que eu não devia ver tanta televisão... Agora está feito.
Enfim - tive que controlar a fúria. E só conheço, na verdade, uma maneira eficaz de o fazer.
Ora, por várias vezes dou comigo a adivinhar, quando compro uma revista de mulheres artisticamente nuas comó milho, o que pensará a D. Henriqueta quando me a vende. O que é que ela pensa que eu faço com a revista, hein? "- Minha senhora" - apetece-me dizer tantas vezes (embora seja raríssimo comprar revistas deste género - o primo Gustavo assina-as) - "Olhe que não é isso que voc~e está a pensar! Eu sou um esteta, um amante profundo da beleza feminina. E estou a comprar a revista somente para me embevecer e glorificar a divina Vénus. Percebeu ou não?".
Geralmente, pelo "Obrigado" que ela consegue fazer saber a "Pervertido!", acho que não.
Ah, mas passo a explicar: não há nada melhor para combater a fúria que a surpresa, a confusão. O meu sistema está em monotarefa, no módulo 41: 'castigar a canalhice'. E entra um vírus, do tipo 21J 'mulher de quadris hipnotizantes'. Pronto - o sistema entra em ruptura. Já não sabe se se deve focar no canalha ou nos quadris.
Hum... porque é que de repente parece que estou a ver uma cena daqueles filmes manhosos? Canalha, quadris... Hum. "Pervertido!". Ok, D. Henriqueta - eu já ouvi à primeira.
Querido Diário - 30
Ao falar com a D. Júlia, antes que ela começasse de novo a discorrer sobre os seus dois filhos (cujos nomes continuo a ignorar), ocorreu-me perguntar pelos seus chinelos. Há dias que tinha a impressão de que ela tinha uns chinelos diferentes, com um padrão aparentemente florido, mas algo amorfos, sem qualidade especial. Para o caso de haver dúvidas, eu não me orgulho especialmente de reparar nestes pormenores. Preferia ter nascido com o dom de pintar cerâmica tradicional, ou com jeito para caçar perdizes. Mas é assim.
Ela, julgo que denunciando a culpa de os ter comprado demasiado baratos para que as perspectivas sejam boas, disse-me apenas: "- É preciso é que dêem para as comunidades".
Mais tarde, repassando a conversa, e estando seguro de que ela dissera a palavra "comunidades", e não outra, perguntei-me se ela quereria ter dito "comodidades", ou se, até, estaria na realidade - com grande argúcia - a aludir aos fungos que mormente lhe têm causado pé de atleta. Não podemos ser demasiado lestos a julgar um lapso linguístico - ou o lapso pode ser nosso.
Ela, julgo que denunciando a culpa de os ter comprado demasiado baratos para que as perspectivas sejam boas, disse-me apenas: "- É preciso é que dêem para as comunidades".
Mais tarde, repassando a conversa, e estando seguro de que ela dissera a palavra "comunidades", e não outra, perguntei-me se ela quereria ter dito "comodidades", ou se, até, estaria na realidade - com grande argúcia - a aludir aos fungos que mormente lhe têm causado pé de atleta. Não podemos ser demasiado lestos a julgar um lapso linguístico - ou o lapso pode ser nosso.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
A Distância ao Divino
Eu tenho uma razão,
E na razão me vicio
Tanto quanto à tentação,
Mas ser normal
Não me sabe a elogio.
E sei -
Não me desvio
Da Natureza,
Nem do juízo do coração.
Maldição!
Ter sangue metade humano,
Ser igual...
Só com pequena variação
De o perceber.
Bolsa a demónica
Força primordial
Em mim...?
E o momento da pulsão
Pára o tempo
Ao Bem, ao Mal.
Dela tanto li
Por ela tanto sofri
E porém,
Ela me assome também
Como se eu não tivesse
Outra linhagem.
E... fico nauseado
Por este tão datado
Programa,
A correr...
Ah - não chega para o quebrar
Dele tanto conhecer!
Suponho que fico a acreditar
Que a humanidade
Acabará
Tão cedo quanto imagino;
É que...
Faz-me mal este pecar
E faço-o só para suportar
A distância ao divino.
Pedro Oliveira
E na razão me vicio
Tanto quanto à tentação,
Mas ser normal
Não me sabe a elogio.
E sei -
Não me desvio
Da Natureza,
Nem do juízo do coração.
Maldição!
Ter sangue metade humano,
Ser igual...
Só com pequena variação
De o perceber.
Bolsa a demónica
Força primordial
Em mim...?
E o momento da pulsão
Pára o tempo
Ao Bem, ao Mal.
Dela tanto li
Por ela tanto sofri
E porém,
Ela me assome também
Como se eu não tivesse
Outra linhagem.
E... fico nauseado
Por este tão datado
Programa,
A correr...
Ah - não chega para o quebrar
Dele tanto conhecer!
Suponho que fico a acreditar
Que a humanidade
Acabará
Tão cedo quanto imagino;
É que...
Faz-me mal este pecar
E faço-o só para suportar
A distância ao divino.
Pedro Oliveira
Querido Diário - 29
Já foram tantas as entradas neste diário que me vi obrigado a mudar a numeração de cada uma de romana para árabe. Se me perguntarem, direi que foi por cagufa de ofender a sensibilidade de algum terrorista, e não porque eu seja um ignorante sem apelo - embora com perpesctivas de agravo (não estou a pensar deixar o álcool tão depressa).
Em retrospectiva, deitar fora a sebenta do rato com a numeração romana foi um erro. Já sei que não vou ficar bem com o pessoal do SPQR, mas não se pode ter tudo.
Em retrospectiva, deitar fora a sebenta do rato com a numeração romana foi um erro. Já sei que não vou ficar bem com o pessoal do SPQR, mas não se pode ter tudo.
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