terça-feira, 22 de setembro de 2009

Querido Dário - 36

As pessoas da Cidade são estranhas. Não respondem obrigado e comem sempre com garfos. Gostava de saber onde é que isto tudo ia parar se não fosse a gente a fazer batata nova. Isto é gente que não sabe o que é um derregar de horta, ou um tratar as oliveiras. Bem querem eles saber.

Será isto aquilo a que eles chama Civilização? Cá para mim, não acredito - o Ti Plácido sempre disse que não havia disso em Portugal. Que era como às gibóias que ele viu em África - existe mas é lá fora.

Isto aqui é caso de aprender a viver sem dizer nada. Esperar numa fila calado, seguir para casa calado, voltar calado. Diz que se não se falar pela televisão - ninguém escuta. E têm cá daqueles caixotes a que chamam computadores, porque não lhes chega a televisão. Não conheço nenhum que tenha um porco à espera para matar no Inverno, e quanto a searas de milho - só se for entre os prédios, que eu não as vejo. Alguns cães, é verdade - ao menos não se estraga os restos de comida.

Mas acho estranha esta gente. É diferente, parece estar sempre a pensar em qualquer outra coisa. Nunca sei se é no tal de sexo, se é só em dinheiro. Às vezes é nos dois. Não - isto é uma zona chata - nem uma latada de tomates me deixam ter, vê lá.

Só têm é muita mouça bonita. Até me perco. Aliás - deve ser por isso que eles cá ficam. O Ti Jaquim até tinha um ataque cardíaco. O médico bem o tem avisado para ele largar a chouriça - que aquilo não lhe faz bem ao coração.

Mas tenho saudades dos meus cães. Isto aqui não é vida. Tenho saudades dos tiros do Clemente, e das berrarias do Freitas no café.

Diz que o sacana do Ti Tónio tem lá uma horta que mete cobiça. Eu não lhe digo nada, que ele tem medo dos maus olhados, agora em velho deu naquilo. Já o pai dele era assim...

Bom - tenho que ir. A ver se chega a matança do porco breve, para voltar.