quarta-feira, 8 de julho de 2009

O Medievalismo Português

Estou ainda, por estes dias, a terminar o meu curso. É certo que já o poderia ter feito antes, mas também é certo que estou 'on schedule' face ao previsto quando começei: 6 anos.

Agora, reparo como para várias pessoas o facto de não ter acabado o curso é um atestado de uma certa... impotência intelectual. '- Então isso já está acabado ou não?' '- Já devias era ter acabado isso'. Como se o patamar intelectual fosse esse, o de acabar um curso superior.

É certo que isso (os comentários, primeiro que o facto de não ter terminado) me chateia profundamente, mas a questão mais interessante, subjacente, está num certo... Medievalismo Português que tal postura comprova. Repare-se nesta pérola: a ninguém, ou practicamente ninguém, interessa que eu consiga ler, e expressar-me melhor ou pior em Inglês, Francês, Espanhol, Italiano, e residualmente em Alemão. Acreditem - a ninguém. Se - se! - não tiver o curso superior concluído... (a não ser que eu viva mergulhado numa conspiração de desatenção e pequena inveja - e em tanto não creio, por mais que gostasse de ser um Mozart ignorado).

Até lá, até esse Evereste intelectual estar conquistado, eu, por mais cultura que tenha agremiado, por mais temas que saiba tratar, por mais curiosidade intelectual que tenha, sou pouco mais que um adolescente de Chelas que abandonou o secundário. E, como tal, nenhum respeito mereço.

Não é que eu precise desse respeito... dispenso-o totalmente. Se bem ache ridícula alguma pretensa superioridade nessa 'Inquisição do Canudo' a pessoas que nunca se esforçaram nesse sentido, ou que não têm a mínima realização intelectual para as legitimar.

Mas o respeito, claro, é a segunda moeda cá do burgo, e se o outro indivíduo ao lado for 'Dr.', mesmo se ignorante, ou (mais comum ) avaro/pedante intelectual, eu é que sou o 'underdog', por melhor que possa ser em relação a ele.

Hei - isto aqui é Portugal. Aqui vive-se de estratos, de concepções e de expectativas. Talvez se eu procurar bem, por entre o trabalho de um José Mattoso, por exemplo, ache uma explicação.

E tento ainda vasculhar a memória: serei de alguma forma beneficiado por esse paradigma medieval que tão vilmente aqui critico? Mas não estou a ver. Não, julgo mesmo que não.

Que querem? Eu continuo a dizer o mesmo, embora saiba como ninguém gosta de ouvir isto: eu não sou um 'underachiever', um estouvado, ou burróide, por não ter o curso acabado. Da mesma forma que não serei um génio por o ter feito. O critério de julgamento está completamente errado. Não é assim que se formam pessoas com ambição pela excelência, ou criativas o suficiente para conseguirem fazer algo de verdadeiramente novo.

Genial mesmo era este país acordar para a vida. Quem sabe - podemos sempre esperar alguma espécie de Renascença, depois deste Medievalismo.