Nisto, dei comigo a recapitular. Estou neste momento a começar um novo emprego, e considero-me, relativamente, e no estado de coisas actual, um privilegiado. Mas há algo que não descansa quem faz mesmo a sua pequena função nesta sociedade - e refiro-me à própria sociedade, ao próprio país.
Hoje em Portugal, vive-se um estado de anarquia, entropia latente, de desconfiança e falta de laços reais. Parte dos problemas serão, suponho, portugueses, mas grande parte também internacionais. Se considerarmos uma sociedade moderna em função de parâmetros de educação e de riqueza, cientificamente aferíveis, e uma sociedade ocidental em função de valores - divisão entre Igreja e Estado, primado da Lei, defesa de direitos humanos, poderíamos dizer que, porquanto Portugal seja ainda uma sociedade moderna, tem vindo progressivamente a diluir a componente de Civilização Ocidental. Isto é, vive num vazio de valores, que se manifestam numa incerteza epidémica.
Por exemplo, que expectativas temos hoje ao ir a um hospital? Podemos ser impecavelmente tratados - certamente que há profissionais desse calibre nos nossos serviços hospitalares - mas também podemos ser acotovelados para alguma situação indigna, alvos de má-educação, por vezes até de erros de diagnóstico, e terapêutica, subjugados ao factor humano, aos ditames de falta de liderança, de excesso de trabalho, por exemplo.
Esse é o nosso país neste momento - o Deserto da Surpresa. Não se sabe o que se vai encontrar, se a práctica de valores ou esforço de coridalidade fazem sentido. Pode-se ser bem-tratado, pode-se ser mal-tratado. Certamente, porém, nada se sabe. Este é um caos que serve apenas - e já não é mau - para manter o estado de coisas. Dificilmente servirá para criar algo de novo. E a criatividade é a única solução para Portugal. Sem novas ideias, face à conjuntura terrífica que se nos apresenta, nada será resolvido.
Não me parece que haja no país quem saiba intrepretar os problemas portugueses nesse sentido profundo. Nem mesmo intelectuais dos mais completos (e ubíquos) como é o caso de José Pacheco Pereira. A 'crise' passa também por eles.
Fácil seria terminar dizendo que tudo é somente uma questão de partidos, de políticas. Também é. Mas essa é uma explicação incompleta. Tudo começou numa demissão dos portugueses acerca do seu próprio espaço pátrio. Há uma série de crimes de omissão passados que serão difíceis de emendar para as gerações mais novas. Talvez elas tudo possam, porém, esquecer. Trabalhar em equipa, inventar coisas novas. Não será fácil - mas nunca foi.
É que o povo português é demasiado inteligente para não perceber os sinais na sua rota de navegação: se houver exemplo, transparência, de quem dirige o país (e convém não cair no facilitismo paternalista de pensar que tal diz respeito somente a um primeiro-minitro, a um partido - analise-se a demissão das nossas elites, a merecerem o eterno manguito do Zé Povinho), o paradigma poderá mudar. Mas existem precedentes demasiado graves para que tudo possa ser facilmente esquecido.