domingo, 30 de agosto de 2009

Querido Diário - 26

Não suporto mais os meus pais. Constantemente, criticam o meu horário de sono, os meus projectos de vida (farto de lhes dizer que os jogos de vídeo melhoram a acuidade visual), a minha higiene pessoal (nem vale a pena insistir na minha tese de que a roupa interior é um mito criado pelo marketing).

Se eu fosse tão mau como eles dizem, dificilmente usaria palavras do calibre de uma "inércia" ou um "diletantismo" para me caracterizar, em defesa dos meus valores. Eis, pois, o tamanho do seu erro.

De qualquer forma tenho um problema, mas não tenho dinheiro. Ou melhor, o problema que tenho é o de não ter dinheiro. Essencialmente, tenho que ter dinheiro para não ter problema. Claro? Donde, não posso sair de casa sem mais nem menos - dinheiro.

E depois - sabes como é - gosto daquele sofá, em que me entrego à evangelização capitalista por séries de qualidade dúbia, com os meus dois melhores amigos: o Häagen e o Dazs. Huh... eles são estrangeiros. Da Hungria. Muito porreiros.

De qualquer forma, dizia eu, quero liberdade. Mas também as contas pagas e a comida à minha espera no tacho (ainda tenho que a pôr na mesa...). Eis o paradoxo. E como é que se resolve este paradoxo? Impossível, dirás tu. Mas só o dirás porque és um bocado implicativo.

A solução é muito simles, na verdade: arranjei-me um vírus Dagripá. Suponho que foi baptizado após um senhor estrangeiro, Dagripá, justamente, o ter identificado. Pergunto-me se também seria húngaro.

De qualquer forma, posso dizer-te que foi um descanso cá em casa a partir do diagnóstico positivo. Só eu, os meus germes, o Häagen e o Dazs (eles têm imunidade baunílhica), a ver DVDs.

Já dura há mês e meio, esta quarentena. Aliás, acho até que quando dura tanto tempo deve ser chamada 'quarentona', de maratona. Não me perguntes... Medicinices.

E não há perspectivas de melhoras - felizmente. Sempre que os meus pais aparecem à janela a perguntar, eu respondo-lhes: "Não... Ainda não. Curado cá em casa só o queijo de cabra. E olha - por acaso está a acabar. Podem trazer mais".

Querido Diário - 25

Novamente aqui te afirmo que não desistirei. Que irei lutar contra tudo, e contra todos, tanto tempo quanto necessário para o conseguir. A História é dos que não desistem. Não desistirei.

Ao certo aquilo que quero conseguir, e de que nunca desistirei... não sei bem o que seja, por ora. Mas certamente que te garanto isto: não vou desistir de o saber!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O Verso

As pessoas às vezes perguntam, e eu costumo responder: só pode ser poeta quem tiver um grande amor ao verso.


I Appreciate The Input

Um bocado farto da modorra/masmorra destes dias. Acordem, chabais!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Querido Diário - 24

Tenho um vizinho absolutamente anormal, que tosse como um cavalo, com uma certa ostentação e orgulho, da sua varanda. É como se fosse o seu grito de Tarzan, a marcar terreno na 'selva de betão. Trinta anos, solteiro, desempregado, a viver com a mãe. Típico. Decadente.

A minha mãe, no entanto, acha que é um problema de saúde genuíno. Isso faz-me tanto mal aos nervos que quase penso em sair de casa. Quase - geralmente fico-me por um copo de leite e biscoitos.

Ainda bem que estou nos meus vinte, e não tenho tosse. Imagina a decadência que seria.

Querido Diário - 23

Quando falo com a R. ao telefone, detecto enjoo. Detecto frete, um certo je-ne-sais-q'éste-gajo-outra-vez... . E fico sempre na dúvida. Há duas hipóteses, meu caro Watson: ou ela não gosta que eu faça de educado porque soube aquilo que eu disse dela (embora aquele 'vaca tresloucada' fosse essencialmente carinhoso), ou então ela é mesmo assim 'full-time'. Devo desistir de ser cortês? É certo que também me sinto algo hipócrita.

Há uma terceira hipótese, meu caro Watson, mas envolve uma invasão de marcianos para colonização da Terra. E isso, como bem sabes, é altamente improvável - desde que isto começou a aquecer, os gajos descartaram este planeta.

Querido Diário - 22

Se os outros também conseguem, porque não eu? Vai daí enchi-me de coragem, e fui cortar o cabelo a um "cabeleireiro". Nunca percebi o nome de "cabeleireiro". É certo que se lida com cabelos, mas não existe - por sinal, no mesmo espaço - "pedicure" para as unhas, ou "manicure" para as mãos? Porquê "cabeleireiro"? É que sabe mal dizer a palavra, tem muitos 'e's. Cansa - e certamente não fará nada bem a uma pessoa que lá trabalha, andar a ter a língua sempre em esforço por tantos 'e's.

E deve ser essa a razão porque o "cabeleireiro" que me atendeu seria maricas. Ora, eu sou um indivíduo tolerante, mas esta coisa de andar com as mãos por toda a minha cara - onde nem há cabelo - mexe com a minha religião. Quando o indivíduo começou a rapar-me os pêlos das costas e eu não sabia onde é que aquilo ia parar tive que franzir o sombrolho à Salomão. Acabou a perguntar se queria ser eu a pentear-me no final.

Faz mal às pessoas, esta coisa de dizer "cabeleireiro". Faz muito mal.

Querido Diário - 21

Esta tarde, ia eu a passar pelo sinal em frente à bomba - eis que um carro pára no sinal verde. De súbito, tento ultrapássa-lo, mas a manobra leva demasiado tempo e quando passo a linha já os carros do outro lado estavam a avançar. Nisto, acelerei. Que rasa.

Olho então para a esquerda para pedir desculpa, e no carro a reclamarem comigo estão o meu primo Amílcar, com a sua pêra à Mefistófeles, óculos escuros, ar 'pit-bull', e um coelho enorme, com uma barriga castanho-escura onde distingo pela janela as letras "CELL". Ainda levantando a mão a desculpar-me, com medo que a minha cabeça explodisse de vergonha, pareceu-me ver o coelho - se bem que agora os meus olhos estivessem concentrados na estrada - a dizer algo que não conseguia ouvir. De alguma forma, porém, dava para ler os seus lábios: 'O que é que estás a fazer nesse estúpido fato de condutor?', perguntou ele, antes dos palavrões. Ao seu lado o primo Amílcar nem olhava para a estrada, só dizia que a tia havia de saber, e que ele sempre desconfiara que eu era daqueles. Seguiram-se mais palavrões.

Encostei para pensar um pouco em tudo aquilo. Estava assustado, e suado, senti-me subitamente diferente. E desde logo prometi nunca mais fazer sonecas depois de beber vinho verde no tempo quente.

domingo, 23 de agosto de 2009

Verão: Allegro Ma Non Molto

Aqui.

Twice

Pior que ser intrujado por Bernie Madoff, só mesmo ser um consorte intrujado. Eis a história da amante de Madoff:

sábado, 22 de agosto de 2009

Querido Diário - 20

Hoje o A. tentou fazer as pazes entre mim e a L.. Mas as coisas não são assim tão simples, não desaparece tudo de repente como se nada fosse. Eu sei que ela queria fazer aquele corte com a folha de papel. E usou o papel mais grosso justamente com esse intuito, aproveitando a maneabilidade. Não é preciso ser um Poirot para o perceber.

Não, certas coisas simplesmente não podem passar o filtro.

Querido Diário - 19

Tive uma namorada que dizia que eu beijava como uma esfinge. O grave é que - como de costume - a relação não chegou ao ponto do beijo na boca. Ah... e agora percebo porquê.

Querido Diário - 18

Quando voltei a casa, um indivíduo num carro, com ar de pertencer à máfia russa (e o indivíduo também não tinha grande aspecto) ficou inusitadamente à espera no final da rua. Suspeito estar novamente a ser vigiado. Voltam os fantasmas do tempo em que a C.I.A. mandava um agente à paisana para a matança do porco. Via-se logo quem era o gajo - nunca chamuscava as unhas como deve ser.

Querido Diário - 17

Hoje uma mulher - para mais casada - deu-me o seu telefone e morada. Isso não acontece a qualquer um. Além disso, quando fechei o registo de cliente no computador, ela sorriu de maneira desconcertante ao dizer 'Boa tarde'. No meu dicionário, era um 'Desejo-te...'.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Bluff

Diz-me a partir de que momento
Tudo se tornou
Carnal, igual,
Banal...
Para que canal mudei eu...?

Tudo se tornou tão previsível
E acaba repetida
A regra mais simples;
Não fosse o sonho o fusível
Que nos incendeia a vida,
Não fosse o sonho a folia
Que pede uma decisão:
A racional atonia
Joga póquer
Com selvagem ambição.

A vida, o mundo
Todos nos dizem que não
Agora não!
Justamente agora não!
E, com dinheiro na mão
Sozinhos
Assim veremos o mundo,
Passando na televisão.

Pedro Oliveira

Querido Diário - 16

Há quem não aprove completamente o meu estilo de vida. Por outro lado, há quem o não conheça.

Querido Diário - 15

Eu sei que te prometi que não ia falar de política... e - olha - já acabei.

Querido Diário - 14

Acho que sou preguiçoso. Eu ficava bem era como o amante de uma mulher com uma vida desgastante. Apesar do que eles dizem dos gajos anafados de óculos eu sinto-me um 'lover - not a fighter'.

Mas dizia que sou preguiçoso. E culpo os genes da minha mãe por isso. Aliás, eu costumava refazer o ditado 'a Preguiça é a mãe de todos os vícios' para apenas 'a Preguiça é a mãe'.

Querido Diário - 13

Se a minha felicidade envolve festas loucas com mulheres bonitas, porque é que nada disso parece remotamente provável, huh? Ter-me-ei esquecido de enviar algum papel para um departamento de Estado?

Vou antes optar pelo plano B: apaixonar-me por uma miúda impossível e depois emigrar para me juntar à Legião Estrangeira.

Espera - aquilo está cheio de franceses.

Querido Diário - 12

Atenta nisto: se há uma estátua para o soldade desconhecido, porque não uma para o 'púdico desconhecido'. Lembrei-me disto hoje ao pensar em como o enorme esforço que faço evitando olhar para os seios das mulheres que atendo não será nunca apreciado por ninguém. 'Em memória dos que reprimiram os seus instintos - e assim sustentaram o equilíbrio da sociedade portuguesa'. Ia ficar lindamente ali no Marquês de Pombal.