terça-feira, 19 de outubro de 2010

When The Going Gets Tough

Tive uma chamada hoje de uma senhora, em Inglês, da parte de uma importante publicação estrangeira, que outrora assinei. Vinha fazer-me uma proposta de assinatura - extremamente tentadora, na verdade, que eu aceitaria desde logo se a política de casa não fosse resistir ao que se não pode ler - por melhor que seja.

A senhora perguntou-me duas vezes se eu queria a oferta ou não, eu desviei-me na calçada bem à portuguesa, e ela exalou pelo telefone um 'short-temper' que eu não tinha ainda recebido no telemarketing tuga (que geralmente aposta em respostas educadas, que me fazem sentir um cafageste por não aproveitar aquela promoção especial).

Amigos editores de periódicos deste mundo: se eu pudesse, assinava quase tudo, e lia quase quase tudo Acreditem - e não há muitos portugueses como eu. A maior parte perde-se em futilidades como Dinheiro, Poder, Sexo, e Maquinação em que o yours truly não se sente tão à vontade como quando no seu sofá a ler.

Portanto, que me desculpem, mas vão mesmo ter que desculpar. Se eu não posso, é porque angustiadamente não posso.

Mas não é a minha contenção (livros e jornais são a minha perdição - espero que mude), que sustenta este post. Antes o facto de nunca na minha vida eu ter recebido um telefonema directo de tal publicação. E se eles ligam à ralé da minor league, para vender - raios, isto está mesmo muito mal.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Life Imitating Fiction Imitating Life

Uma coisa muito curiosa, estranha, quando penso na década de 90 e na década de 2000 é a emancipação das séries de TV que eu via. Ao contrário do filme de Woody Allen, foi a ficção que invadiu a realidade.

Primeiro foi o Dragonball copiado por Cristiano Ronaldo - o treinar, treinar, treinar para conseguir ser... super-guerreiro (ou super-puto). E o futebol como o 'combate'.



Depois foram os Gato Fedorento - não que não produzissem ficção também, claro, mas trouxeram o tipo de piada que parecia tão estrangeira, tão americana, tão fora do mainstream português - para o mainstream português. Uma das mais bem feitas enxertias culturais, com talento - sobretudo de Araújo Pereira e Quintela. Trouxeram o registo dos Monty Python, dos Friends, do Seinfeld.


Desta vez ocorreu-me recorrer a algo um pouco mais subtil. Se vocês começarem o vídeo no minuto 4:51 faz-vos lembrar algo?

Outra transição - enorme - foi a da pornografia. A certa altura dos anos 90, com o (going on) mítico Canal 18, ela saltou dos VHS manhosos e dos PC dos adolescentes para... todo o lado. Depois - suprema ingerência - os adultos começaram a mexer nos nossos computadores (damn user-friendly interfaces...), e a contactar com esse mundo de pornografia, inesgotável, gratuito.



Eis como a pornografia - de repente - passou a ser universalmente aceite; era fácil reconhecer os românticos ingénuos que não sabiam ainda 'da coisa'. Pessoas que hoje são famosas foram envolvidas em situações pornográficas (Ronaldo, a propósito) - e nenhum mal veio ao seu mundo. Porque a pornografia era, cada vez mais, um pecado generalizado. Mas nessa transição, é fácil esquecer algo o veículo principal: a tecnologia - o desenvolvimento da Internet com alta velocidade e aumento do poder de computação (eventualmente o desenvolvimento da rede de TV por cabo).

E assim a pornografia passou de algo contido a 'vecinitas cachondas' para um oceano de coisas, que mistura tudo, melhor e pior, inclusive a mais disturbing perversão... Antes os operadores de cabo faziam de conta que não sabiam 'daquilo' - 'vem de Espanha' defendiam-se com... pudor. Lembram-se? Agora existem canais (plural) especializados em todos os operadores.

(Recordo, para manter o fio condutor nesta discussão, que a pornografia é ficção, maioritariamente. Basta pensarem no vosso dia-a-dia para verem a diferença. Lá por não excercitar os mais nobres locais da nossa mente, é uma 'construcção de descontrucção', e como tal ficcional. Só seria (será?) documental, descontrucção do sexo, na versão National Geographic da vida humana.)

No meio disto veio o 'American Pie' - a traduzir em cinema o mundo de secreto, e delicioso... deboche (?) pós-Internet da minha geração. Neste caso, porém, foi a Ficção a Imitar a Vida.



É - eu gosto bastante do filme.

O que é muito interessante, para mim, porque a pornografia exibiu cruamente uma realidade, matou ilusões e educações arcaicas - e hoje já nem nos apercebemos que só temos o dinheiro, a fama, o poder, o trabalho. A pornografia matou muito romântico nas duas últimas décadas, e tornou a sociedade mais egoísta, e selvagem - darwiniana (se o não foi sempre).

My Fiction, My Life

A mais recente invasão da realidade por séries de ficção é... a minha vida. Ultimamente, com o desregramento de não estar a trabalhar, e estudando em part-time (de nenhum full-time), com a insalubridade da má alimentação, as horas de sono trocadas com quem trabalha em casa, recordo-me das... Ab Fab:



Eu via isto mais novo, e foi profético - para a minha small picture. Tal como a televisão foi profética no que se viria a passar na big picture.

É claro, a série de TV que eu pensei que seria a minha vida - honestamente - seria esta (como peculiar médico de Clínica Geral, resolvendo os 'casos'):



But, alas, it wasn't to be. (Foi a Agatha Christie que me ensinou o alas).

Talvez até, na verdade, fosse esta a série que eu quisesse vir a ser a minha vida:


A propósito, é altamente necessário que esta ficção volte... à ficção. Sic Radical - quanto tempo para acordar para a vida, hein?

Por não acabar? (Risos) Na altura mais por ser a vida do solitário bem consigo - sereno. E talvez ainda vá bem a tempo dela. Bem a tempo.

Wake Up And Smell The Bullshit

Eu não quero emitir juízos ideológicos, a sério que não quero*, mas será que mais alguém reparou na quantidade de vezes que foi dito 'inesperado' o Nobel de Llosa? E não vos parece que nem todos os 'inesperado' estão bem explicados?

1. Foi 'inesperado' para o próprio Llosa, permanece por saber se por humildade pessoal, se por descrença na Academia;

2. Foi 'inesperado' porque espécie de remissão do prazer perverso de nos anos anteriores laurear desconhecidos;

3. Agora, parece-me que, para muitos jornalistas, o prémio foi 'inesperado' porque Llosa é de direita, como se sabe - e como tal uma traição ao 'espírito' daquele Nobel.

Mas este último 'inesperado', nenhum deles o explicita. Sou só eu que por baixo dele vê uma confissão amordaçada? Talvez.

*a questão aqui é a bullshit.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Reading List 14


Confesso que peguei n' "O Bom Inverno", com uma imensa suspeita. Primeiro, porque me parecia que havia uma espécie de publicidade histérica ao livro - estava em todo o jornal ou revista que eu lia (se bem que Verão eu leia mais periódicos), sempre com inusitada benevolência. Bom. Bom? A dita benevolência poderia ser justificada, mas tamanho uníssono entre portugueses faz-me sempre suspeitar. Sobretudo em crítica a livros.

Segundo, sigo o blog do autor (e até inseri neste uma réplica a uma piada pouco elegante sobre o Sporting, o que me envergonha ligeiramente, não porque me arrependa de criticar o que disse Tordo, mas porque expressa mais clubismo do que eu gostaria em mim...). Espera - este parêntesis ainda não é a segunda razão. Está aqui: seguindo, dizia eu, o blog do autor, reparei que este incluiu a recensão de António Pedro-Vasconcelos (Sol), Rui Lagartinho (TimeOut) e Eduardo Pitta (Público), todas francamente positivas, em linha com o uníssono estival. Mas - mas... - não incluiu a crítica de António Guerreiro, na Actual do Expresso, que, não desdenhando o livro, se dispôs contra-corrente à infatuação criada. Essencialmente, pondo o livro no lugar de "boa narrativa, mas não me venham com 'prodígios literários'".

Se João Tordo cultiva uma imagem de relativa humildade, dedicando-se à tradução enquanto está nos tops de vendas, definindo-se 'um gajo que conta histórias' - imagem em que eu acredito, sem ironia - então porque censurou uma crítica, admitamo-lo, tão relevante como a do 'Expresso'?

Estava criado o viés. E assim parti para o livro, e assim acabei o livro, e assim respondo à questão essencial em todas estas questões: O livro é bom? É.

Em linha com o que diz Guerreiro, tem bastante valor do ponto de vista da narrativa. Tal como Tordo admitiu, tem uma cadência cinematográfica, e pontua na exacta medida em que se escreve mal relatos de acção em Portugal, ou os portugueses são maus a (d)escrevê-la. Tal como são maus no relato do sexo.

'O Bom Inverno' é um thriller. Sabe prender o leitor, a 'closure' da narrativa parece-me muito bem gizada, e mistura estrangeiros com locais estrangeiros, com eventos estranhos, com um estilo fluído.

Gostei especialmente da mimetização psicossomática que o narrador faz de House. Talvez até o pudesse ter explorado ainda melhor - tal como o mistério sexual que concebeu. Detectei também, com algum agrado pessoal, uma ou outra passagem que reflecte os autores vitorianos que, numa entrevista ao Público, Tordo enuncia como influências. Menções a morcegos e à lividez que evocava alguém a sugar o sangue durante a noite...

E dentro em breve, irão perceber porque falo especificamente nisto.

Não gostei da técnica usada nas notas de rodapé. Não sei se é algo à David Foster Wallace - mas não resultou.

De referir en passant o facto de resgatar uma personagem de livro anterior - Nina Millhouse Pascal - de quem a certa altura descreve assim:

"Aquela mulher que (...) eu sentira conhecer desde sempre - (...) como se eu a tivesse escrito num romance muito antes de a ter conhecido em carne e osso (...)."

E que cria uma outra personagem que segue para novo livro.

Em suma, vale a pena ler. Tem novidade e ritmo. Serve bem para escapar ao péssimo Inverno que teremos este ano.

290 páginas em Português
Kilometragem em Português:
1417 páginas.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Sexy MoFo

Who's your daddy?





Não percebes nada, isto é uma dedicatória cómica a um jovial bísaro - rei ghob é a titi.

sábado, 9 de outubro de 2010

Da Bazófia

À consideração do Edu, na fase de macho-man (essa réplica 'nacho-man' é para insinuar que eu estou gordo?). Aqui o Costanza até és tu, eh eh. No final - um pouco de paciência, que vale a pena.

Retirado do brilhante 'Roommate Switch'.



Sejamos honestos. Quando a altura chega a sério, a bazófia é a primeira a desnudar-nos.

Esta Nossa Quinta

Ainda o melhor livro sobre a 1ª República em Portugal:



Curiosamente, também se adapta muito bem ao 25 de Abril.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Parabéns!

Caramba, que já me esquecia de dar os parabéns à SIC pelo seu aniversário.

Ah, lembro-me tão bem dos começos... Afinal, eram os meus também.




quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A Lição Brasileira

Um fenómeno que me intriga especialmente é a qualidade do Cinema brasileiro. Não tanto que o Brasil faça excelentes filmes, claro, mas esta sensação de que - deste lado do Atlântico - ainda estamos na estaca zero. Não me faz o mínimo sentido, tão colossal diferença.


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Testemunha de Java

A última coisa que a maior parte das pessoas que me conhecem esperam é que eu lhes diga que me matriculei num curso de Engenharia Informática no Técnico. Não, estou a brincar. O que a maior parte das pessoas deste-indivíduo-conscientes não espera é que eu diga que me converti em realizador de Cinema - versão amadora. Rectifico - que eu esteja a escrever um romance histórico baseado na construção do Mosteiro da Batalha. Digo, que eu esteja prestes a tornar-me colunista de uma pequena revista de automóveis. Talvez que eu esteja de malas feitas para o Brasil para um estágio de 6 meses no Rio de Janeiro, como aluno de um curso de Farmacoterapia.

Eu sou uma caixa-de-óculos de surpresas, não há dúvida. É que de vez em quando temos que dar um remix nesta vida.


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Reading List 13



Eu sei que devia ter sido com o Machado de Assis, mas, na realidade, foi com o Nelson Motta e o Zuenir Ventura que começei a minha exploração - que espero longa - pela literatura brasileira. E não estou nada arrependido.

"Bandidos e Mocinhas", do Nelson Motta, é um policial que, como o apresenta Ferreira Fernandes, tem um ritmo fantástico, as histórias entrelaçam-se naturalmente na narrativa final. Tem pormenores deliciosos, que me fazem salivar por mais bons livros brasileiros. Assim os descubra eu.

Vale a pena ler este livro, é tão estonteante e adstringente como lima com açúcar e cachaça. Ou então foi porque este Verão, quando o li, aprendi também a fazer caipirinhas.



O "Inveja - Mal Secreto", de Zuenir Ventura terminei-o anteontem. É um excelente ensaio sobre inveja, que acaba por ser um policial também, involuntariamente. Curiosamente parecido ao tema de Nelson Motta ("Inveja" foi publicado primeiro).

Para mim, traz todas as definições que vou precisar para me referir a esse pecado. Só não gostei de Zuenir avisar que mistura factos e ficção (preferia que a história fosse fidedigna, como parece). Ou talvez isso seja apenas a honestidade que falta a outros.

529 páginas em Português
Kilometragem em Português: 1127 páginas.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Contra-Indicação

Hei... Eu não sabia disto.

TYS

Já não tenho grandes argumentos para justificar o meu ter previsto o sucesso de Lady GaGa (contra detractores). Olha, fica apenas um TYS: Told You So. Prontos, pá.

The Mourinho Affair

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Redenção

Redenção

I

Vozes do mar, das árvores, do vento!
Quando às vezes, n'um sonho doloroso,
Me embala o vosso canto poderoso,
Eu julgo igual ao meu vosso tormento...

Verbo crepuscular e íntimo alento
Das cousas mudas; psalmo misterioso;
Não serás tu, queixume vaporoso,
O suspiro do mundo e o seu lamento?

Um espírito habita a imensidade:
Uma ânsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.

E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha...
Almas irmãs da minha, almas cativas!

II

Não choreis, ventos, árvores e mares,
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares...

Da sombra das visões crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
D'esse sonho e essas ânsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares...

Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, já puro pensamento,

Vereis as Formas, filhas da Ilusão,
Cair desfeitas, como um sonho vão...
E acabará por fim vosso tormento.

Antero de Quental (1842-1891)

Reading List 12









Vamos, pois, tratar os despojos das férias. Antes de mais, os 4 volumes da série Dexter, de Jeff Lindsay, que me faltavam.

O primeiro da série, recordo, é excelente. 'Darkly Dreaming Dexter' parece-me ser, de todos os cinco volumes o melhor. Embora continue com bons momentos de humor, 'Dearly Devoted Dexter' já tem uma ou outra parte que eu achei... "lame" (embora a história de assassínio seja a mais arrepiante, mesmo perturbadora no primeiro contacto).

Definitivamente, o pior da série é o terceiro volume: 'Dexter In The Dark', em que Lindsay procura explicar a existência do Dark Passanger não da forma psicanalítica que faria mínimo sentido, mas como um deus bíblico que ocupa o homem. Não que eu seja contra deuses bíblicos malvados - mas é pouco convincente esse 'cross-over', estraga o Dexter enquanto ser possivelmente real. Este livro, julgo que aquele com maior número de páginas, está obscenamente cheio de 'palha', partes da narrativa que não significam nada para a história. Blargh.

Há, então, uma nítida recuperação no quarto volume, que já tem uma história mais convincente (exceptuando a viagem - inútil - de Dexter a Cuba com o namorado ex-operativo de Deborah - momento de 'palha' mais elaborado), mas não entusiasmante. O final, no entanto, é bastante bom.

O último e quinto volume da série será o segundo melhor, pelo papel do irmão de Dexter (que curiosamente regressa desde o 'Darkly Dreaming' pela primeira vez), sobretudo. Neste caso, a narrativa é mais homogénea, embora os vilões sejam talvez os mais rebuscados.

Mas todos eles valem a pena ler, pelo humor, ironia, e desconcertante opinião do mundo de Dexter. E eu, no meu caso pessoal, gosto muito de ler sobre sócio-disfuncionais, que trabalham no seu prazer íntimo em segredo, e que, apesar de passarem por 'bom tipo', têm sempre um vilão de estimação que desconfia deles. Gosto muito, mesmo.

1400 páginas em Inglês
Kilometragem em Inglês: 3285 páginas

Error!

Acabando por perceber que posso ter, hoje, cometido um erro horrível na minha vida. Mas os erros são assim - e só nos deveríamos queixar de nós. Mas, provavelmete, não é isso que vai acontecer.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Treino

Agora que a Educação Sexual (com maiúsculas) volta a ser tema do dia, não resisto a deixar a minha contribuição, remetendo para a excelência desta lição.

Vou ser cá um tio bem porreiro.



E, não menos excelente, porque não a opinião de Mark Twain sobre o assunto?

Tarantino's Mind

Uma das coisas que aproveitei para fazer estas férias - que parece estarem a prolongar-se indefenidamente - é apreciar alguns filmes que nunca me passaria pela cabeça ter visto, anos atrás.

Vai daí, apareceu o Tarantino.

Back With A "Macheia"

Guess whose back?


(foto Ana Pereira/24horas)

É: Joana Duarte e Joana Freitas. Evocadas neste outro mulherengo de um blog. Au bonheur des messieurs.

Hei, e eu... eu também voltei, obrigado pela atenção... Quanto a memórias, houve-as boas e más. Mas deu para trazer de recuerdo uma "macheia" de sol aqui para o blog. Bora lá.