
Confesso que peguei n' "O Bom Inverno", com uma imensa suspeita. Primeiro, porque me parecia que havia uma espécie de publicidade histérica ao livro - estava em todo o jornal ou revista que eu lia (se bem que Verão eu leia mais periódicos), sempre com inusitada benevolência. Bom. Bom? A dita benevolência poderia ser justificada, mas tamanho uníssono entre portugueses faz-me sempre suspeitar. Sobretudo em crítica a livros.
Segundo, sigo o blog do autor (e até inseri neste uma réplica a uma piada pouco elegante sobre o Sporting, o que me envergonha ligeiramente, não porque me arrependa de criticar o que disse Tordo, mas porque expressa mais clubismo do que eu gostaria em mim...). Espera - este parêntesis ainda não é a segunda razão. Está aqui: seguindo, dizia eu, o blog do autor, reparei que este incluiu a recensão de António Pedro-Vasconcelos (Sol), Rui Lagartinho (TimeOut) e Eduardo Pitta (Público), todas francamente positivas, em linha com o uníssono estival. Mas - mas... - não incluiu a crítica de António Guerreiro, na Actual do Expresso, que, não desdenhando o livro, se dispôs contra-corrente à infatuação criada. Essencialmente, pondo o livro no lugar de "boa narrativa, mas não me venham com 'prodígios literários'".
Se João Tordo cultiva uma imagem de relativa humildade, dedicando-se à tradução enquanto está nos tops de vendas, definindo-se 'um gajo que conta histórias' - imagem em que eu acredito, sem ironia - então porque censurou uma crítica, admitamo-lo, tão relevante como a do 'Expresso'?
Estava criado o viés. E assim parti para o livro, e assim acabei o livro, e assim respondo à questão essencial em todas estas questões: O livro é bom? É.
Em linha com o que diz Guerreiro, tem bastante valor do ponto de vista da narrativa. Tal como Tordo admitiu, tem uma cadência cinematográfica, e pontua na exacta medida em que se escreve mal relatos de acção em Portugal, ou os portugueses são maus a (d)escrevê-la. Tal como são maus no relato do sexo.
'O Bom Inverno' é um thriller. Sabe prender o leitor, a 'closure' da narrativa parece-me muito bem gizada, e mistura estrangeiros com locais estrangeiros, com eventos estranhos, com um estilo fluído.
Gostei especialmente da mimetização psicossomática que o narrador faz de House. Talvez até o pudesse ter explorado ainda melhor - tal como o mistério sexual que concebeu. Detectei também, com algum agrado pessoal, uma ou outra passagem que reflecte os autores vitorianos que, numa entrevista ao Público, Tordo enuncia como influências. Menções a morcegos e à lividez que evocava alguém a sugar o sangue durante a noite...
E dentro em breve, irão perceber porque falo especificamente nisto.
Não gostei da técnica usada nas notas de rodapé. Não sei se é algo à David Foster Wallace - mas não resultou.
De referir en passant o facto de resgatar uma personagem de livro anterior - Nina Millhouse Pascal - de quem a certa altura descreve assim:
"Aquela mulher que (...) eu sentira conhecer desde sempre - (...) como se eu a tivesse escrito num romance muito antes de a ter conhecido em carne e osso (...)."
E que cria uma outra personagem que segue para novo livro.
Em suma, vale a pena ler. Tem novidade e ritmo. Serve bem para escapar ao péssimo Inverno que teremos este ano.
290 páginas em Português
Kilometragem em Português: 1417 páginas.
Kilometragem em Português: 1417 páginas.