domingo, 7 de fevereiro de 2010

Poesia, Esta Coisa Nossa - 2


Poema da malta das naus


Lancei ao mar um madeiro,

espetei-lhe um pau e um lençol.

Com palpite marinheiro

medi a altura do sol.


Deu-me o vento de feição,

levou-me ao cabo do mundo.

Pelote de vagabundo,

rebotalho de gibão.


Dormi no dorso das vagas,

pasmei na orla das praias,

arreneguei, roguei pragas,

mordi peloiros e zagaias.


Chamusquei o pêlo hirsuto,

tive o corpo em chagas vivas,

estalaram-me as gengivas,

apodreci de escorbuto.


Com a mão direita benzi-me,

com a direita esganei.

Mil vezes no chão, bati-me,

outras mil me levantei.


Meu riso de dentes podres

ecoou nas sete partidas.

Fundei cidades e vidas,

rompi as arcas e os odres.


Tremi no escuro da selva,

alambique de suores.

Estendi na areia e na relva

mulheres de todas as cores.


Moldei as chaves do mundo

a que outros chamaram seu,

mas quem mergulhou no fundo

Do sonho, esse, fui eu.


O meu sabor é diferente.

Provo-me e saibo-me a sal.

Não se nasce impunemente

nas praias de Portugal.


António Gedeão (1906-1997)