Hoje sentei-me a escutar
Um velho bêbado no chão,
Ele precisava de falar
E eu, de fato e gravata,
Tinha coração a dispensar,
Que se lixe... porque não?
Tantos são
Os silêncios do dia,
Escutá-lo não me mata,
Nem esta pedra negra e fria.
Falou da sua vida, e dos erros
Que o levaram à bebida,
Erros pequenos, erros naturais
Pergunto-me se tal castigo em vida
Não será castigo a mais.
Agora é tarde,
A noite cai, e oiço a história novamente
Não...
Ah, velho bêbado
Nas palavras falta-te sóbria lógica -
Falas na desordem de quem só sente.
Passa então por nós
Uma rapariga
Altiva, e apressada,
Sem nos mirar,
Sem responder à pergunta do velho
(Inocente);
Segue como quem tem vida reservada,
Noutro tempo mais decente.
Não tão bela
Que precise de altivez,
Magra e seca, e talvez...
Talvez viva ainda sozinha,
Disfarce ao rir no telefone,
Escrevendo na Internet
Talvez não queira olhar
Para quem se compromete
Com vida em sorte calhada.
Para onde vão estas mulheres?
Que vida têm reservada?
Carregam aos ombros o peso imenso
De nada...?
O velho bêbado não suspeita
Que ela foge, contrafeita
Àquela perdição.
Serves-lhe de lição, velho
Que rodas a garrafa dos sonhos,
Vazia.
E deixo-te para jantar
Nisso tenho mais sorte que tu,
Mas janto o que houver -
Eu nunca faço reservas,
Não sou tanto que me importe.
E caminho respirando a noite
Fresca de serenidade...
Entre vós dois,
Não sou antes nem depois,
Não sou desgraça,
Nem cálculo de felicidade.
Pedro Oliveira