Agora que me despeço da Margem Sul, não posso deixar de fazer um apontamento muito pessoal. Os portugueses são muito iguais em toda a parte, embora - desde Herculano - eles pensem que não. Apenas eu sou um pequeno-burguês lisboeto-rural, e tinha ouvido a minha parte de estereótipos ("aquilo é um deserto"). Fui ver como era.
Nestas zonas de Sesimbra, na proximidade de Setúbal, notei um fenómeno muito curioso: vejo os homens com temperamento marinheiro, algo agressivos, e desleixados, alguns mesmo porcos, quase como reflexo da sujidade das docas. Mas também francos, como se a impaciência cultivasse igualmente a honestidade.
Há o equivalente feminino desse perfil, é certo, mas há também uma variante feminina que me espanta realmente: pelo meio desse existir masculino algo rude, existe, por vezes, uma rapariga, uma mulher, de uma beleza inusitadamente delicada. Como que inebriantemente feminina, passe a redundância.
Uma beleza de Botticelli - silente, reservada, por vezes inconsciente de si. Temendo algo? Ia dizer uma beleza meridional, mas os casos de que me recordo tinham todos cabelos louros. Mais bem recordam-me as mulheres do centro e norte de Itália.
Visões de uma certa mulher do Sul europeu, suponho, no esplendor da juventude. Bella.

